Prefeitura do Recife lança IA para identificar risco de feminicídio

Prefeitura do Recife lança ClarIA, sistema de inteligência artificial que analisa dados da rede de saúde para identificar mulheres em risco de violência e prevenir feminicídios

A Prefeitura do Recife apresentou uma ferramenta de inteligência artificial voltada à identificação precoce de mulheres em risco de violência, utilizando dados da rede municipal de saúde para alertar profissionais durante atendimentos na atenção básica. A iniciativa integra ações de prevenção ao feminicídio e de fortalecimento da assistência às vítimas.

Desenvolvida pela Secretaria de Saúde do Recife em parceria com a Secretaria da Mulher, a tecnologia chamada ClarIA analisa registros clínicos e históricos de atendimento para identificar possíveis sinais de violência ainda não notificados. Quando o sistema detecta indícios, um alerta é enviado automaticamente aos profissionais de saúde por meio do Prontuário Eletrônico das Unidades Básicas de Saúde, permitindo a adoção de medidas de acolhimento e encaminhamento.

Além da ferramenta tecnológica, a gestão municipal lançou o Guia Prático de Atenção às Mulheres em Situação de Violência no Recife, documento direcionado aos profissionais da rede pública de saúde para orientar a identificação, acolhimento e encaminhamento das vítimas.

Uso de dados para identificar risco

Durante a apresentação da iniciativa, o prefeito do Recife, João Campos, explicou que a tecnologia utiliza análise preditiva para identificar situações de risco a partir de dados da própria rede de saúde.

“A ClarIA faz uma análise preditiva, com base em informações da saúde, observando se há um risco da mulher que está sendo atendida na saúde estar em uma situação de violência que ainda não foi notificada. Essa inteligência artificial vai começar a ser utilizada e as equipes serão treinadas em todas as unidades de saúde do Recife. A gente começou de forma piloto, mas agora, em abril, já vamos chegar a 23 unidades e 519 profissionais. Toda a rede será contemplada até o mês de julho. Enquanto tiver muito feminicídio e a mulher estiver em risco na cidade, a gente tem que trabalhar”, afirmou.

A ferramenta foi desenvolvida a partir de parceria entre a Prefeitura do Recife, por meio da Secretaria de Saúde, a organização internacional de saúde pública Vital Strategies e a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

O sistema analisou registros de atendimento de 16 mil mulheres vítimas de violência atendidas nas Unidades de Saúde da Família ao longo de dez anos, além de dados do Sistema de Informações de Agravos de Notificação (Sinan), base nacional que reúne notificações obrigatórias de doenças e violências no país.

A partir desse cruzamento de dados, foram identificados padrões de comportamento e adoecimento associados a situações de violência.

“Foram analisados mais de 900 mil registros de mulheres da cidade nos últimos 10 anos de saúde e foi identificado que, cerca de 92 dias antes da violência, as vítimas tendem a buscar mais atendimentos de saúde, principalmente para tratamentos psicológicos, alegando quadros depressivos, ansiedade ou pânico. Há um tempo médio de 30 dias entre a notificação e o óbito. Ou seja, se nada for feito dentro desses 30 dias há um risco enorme de morte por feminicídio”, disse o gestor da Capital.

Atenção básica como porta de entrada

A secretária de Saúde do Recife, Luciana Albuquerque, destacou que a estratégia busca ampliar o papel da atenção básica na identificação dos casos.

“Hoje, 75% das notificações de violência contra a mulher no Sinan são feitas pelos pronto socorros, enquanto 1% são feitas na Atenção Básica. Estamos trabalhando para mudar essa realidade, porque identificar precocemente, compreender o contexto, acolher e direcionar para a rede de apoio especializada podem fazer toda a diferença na vida delas, rompendo o ciclo de agressões e até mesmo o óbito”, afirmou.

Antes da expansão do sistema, a iniciativa foi testada em três Unidades de Saúde da Família e em uma equipe multiprofissional do Distrito Sanitário I: Santo Amaro III, Santa Terezinha e Pilar, com 62 profissionais capacitados.

Na etapa seguinte, 21 novas unidades serão incorporadas ao projeto, totalizando 519 profissionais treinados, entre médicos, enfermeiros, dentistas, agentes comunitários de saúde e três equipes multiprofissionais.

Integração com a rede de proteção

A secretária da Mulher do Recife, Glauce Medeiros, afirmou que o uso da tecnologia amplia a capacidade de atuação da rede municipal de enfrentamento à violência contra mulheres.

“Essa é uma excelente notícia para quem atua na prevenção e no enfrentamento da violência contra a mulher. A Prefeitura do Recife inova ao incorporar a tecnologia como ferramenta estratégica de prevenção. A partir do momento em que a Secretaria de Saúde identifica, notifica e encaminha essa mulher para os serviços da Rede Clarice, que é a rede municipal de enfrentamento à violência contra a mulher, fortalecemos a atuação integrada e conseguimos chegar mais cedo, de forma mais ágil e qualificada”, afirmou.

A Secretaria da Mulher também participará da capacitação dos profissionais da saúde para orientar o uso da ferramenta e os fluxos de encaminhamento para a Rede Clarice, estrutura municipal de atendimento às mulheres em situação de violência.

Recife tem guia

O Guia Prático de Atenção às Mulheres em Situação de Violência no Recife, com 45 páginas, reúne orientações clínicas, psicossociais e operacionais para os profissionais da rede municipal.

O material descreve sinais clínicos, psicossomáticos e sociais associados a situações de violência, mesmo quando não relatadas diretamente pelas pacientes, além de detalhar os fluxos de atendimento da rede de saúde e os equipamentos especializados de referência.

O documento também traz orientações sobre notificação compulsória, procedimento obrigatório em casos de violência interpessoal registrado no sistema de saúde.

O guia está disponível em formato digital na biblioteca virtual da Escola de Saúde Pública do Recife, no perfil institucional da Secretaria de Saúde e no sistema de prontuário eletrônico PEC e-SUS, utilizado nas unidades da atenção básica.

Além do material de apoio, os profissionais poderão acessar teleconsultorias da Saúde Digital do Recife, por meio do serviço Conecta Zap e de atendimento telefônico, para esclarecer dúvidas sobre procedimentos diante de casos suspeitos.

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SOBRE O EDITOR
Márcio Didier

Márcio Didier é jornalista, formado pela Universidade Católica de Pernambuco, com passagens pelo Jornal do Comércio, Blog da Folha e assessoria de comunicação

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