Quando o “não” vira sentença: o país que mata mulheres

Ato unificado Dia Internacional da Mulher no Rio de Janeiro

Rosilene, Tatiana, Jane, Tainara, Isabele, Solange. Mais do que mães, filhas, irmãs, esses nomes compõem a estatística macabra de uma epidemia que corrói a sociedade brasileira. Nesse domingo (8), milhares de mulheres foram às ruas no Brasil para denunciar os casos de feminicídio que se avolumam no País. Ao invés de celebrar o avanço nos direitos delas, choraram as vítimas.

E choraram porque, por trás de cada nome, há uma história interrompida pela violência de homens que confundem amor com domínio e relacionamento com propriedade. O Brasil convive hoje com um paradoxo brutal: enquanto mulheres conquistam mais espaço na política, no trabalho e na vida pública, cresce também a reação violenta de quem não aceita perder o controle que durante séculos acreditou possuir.

A história do país é manchada pelo sangue de mulheres que ousaram ser donas de si. O que assistimos hoje, com uma frequência cada vez mais assustadora, não é apenas uma sequência de crimes isolados. É o sintoma de uma patologia social profunda: o homem que enxerga a mulher não como um semelhante, mas como um ativo — um território cercado, vigiado e controlado, sobre o qual ele acredita ter direito de decisão.

Em dezembro, durante agenda na Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu voz a uma indignação que ultrapassa as estatísticas. Ao citar episódios brutais de violência contra mulheres, como Tainara Souza Santos, 31 anos, arrastada por um quilômetro pelo ex-namorado, Lula condenou a misoginia e fez um apelo direto aos homens para que assumam responsabilidade na luta contra essa barbárie. A pergunta feita por ele ecoa como um alerta: o que está passando na cabeça de homens que acreditam poder decidir sobre a vida de uma mulher?

A resposta, por mais desconfortável que seja, está enraizada em uma cultura machista que ainda sobrevive no imaginário social. Durante gerações, ensinou-se aos homens que o “não” feminino é afronta, que a independência da mulher é ameaça e que o fim de um relacionamento é humilhação. Quando um homem mata uma mulher porque ela decidiu ir embora, não se trata de crime passional nem de “excesso de amor”. Trata-se da lógica absurda de posse.

Dia da Mulher; dia de denúncia

Nesse contexto, o 8 de março deixou de ser apenas um marco simbólico de celebração de direitos. Tornou-se um dia de denúncia, mobilização e resistência. Em várias cidades do país, mulheres foram às ruas para exigir justiça e políticas públicas mais eficazes. A pauta deixou de ser apenas igualdade: passou a ser sobrevivência.

No Nordeste, os nove estados decidiram reagir de forma coordenada. O Consórcio Nordeste lançou nesse domingo (8) a campanha “Compromisso Nordeste pelo Fim da Violência contra a Mulher”, propondo um pacto regional baseado em prevenção, proteção e responsabilização dos agressores. A iniciativa parte do diagnóstico de que a violência de gênero não é apenas um problema doméstico ou individual. É uma questão de segurança pública, de direitos humanos e de civilização.

Um dos pontos centrais da proposta é envolver os homens no processo de mudança cultural. Não basta exigir que as mulheres se protejam; é necessário que os homens deixem de agredir, controlar e silenciar. Isso exige romper o pacto informal de conivência masculina que muitas vezes se manifesta em piadas, comentários e comportamentos que naturalizam o machismo.

A transformação cultural passa por um princípio simples: homens precisam confrontar outros homens. Questionar atitudes, interromper comportamentos abusivos, recusar a normalização da violência. O combate ao feminicídio não será vencido apenas com leis, delegacias ou campanhas. Ele exige uma mudança profunda na forma como a sociedade construiu a ideia de masculinidade.

Os números deixam claro o tamanho da tragédia. O Brasil registrou mais de 1.500 feminicídios em 2025 — o equivalente a cerca de quatro mulheres assassinadas por dia. Quatro vidas interrompidas, quatro famílias destruídas, quatro histórias apagadas diariamente pela brutalidade.

Não há mais espaço para neutralidade diante desse cenário. Cada silêncio, cada relativização e cada desculpa reforçam a engrenagem da violência. A sociedade precisa decidir de que lado está.

Ela é livre. O não é não. E nenhuma sociedade que tolere a violência contra a liberdade pode se considerar verdadeiramente civilizada.

As mulheres citadas no início do texto foram vítimas de crimes brutais em várias regiões do Brasil. Uma lista abominável, que infelizmente cresce a cada dia.

  • Rosilene Barbosa do Espírito Santo, 38 anos, técnica de enfermagem assassinada a tiros pelo ex-marido em Rio Verde (GO), em novembro de 2025; ela havia pedido medida protetiva dias antes.
  • Tatiana Corrêa dos Santos, 38 anos, mãe de cinco filhos, esfaqueada até a morte pelo companheiro por ciúmes em Cordeirópolis (SP), em dezembro de 2025.
  • Jane Oliveira, 47 anos, morta a facadas pelo ex-companheiro em Valparaíso de Goiás (GO), em novembro de 2025; o agressor confessou o crime pelo telefone.
  • Tainara Souza Santos, 31 anos, atropelada e arrastada por um quilômetro na Marginal Tietê (SP) pelo ex-namorado em novembro de 2025, falecendo em 24 de dezembro após amputações.
  • Isabele Gomes de Macedo, 40 anos, grávida, queimada viva junto com quatro filhos pelo companheiro no Recife (PE), em novembro de 2025.​
  • Solange Pires Revoredo, sobrevivente de anos de violência física, psicológica e patrimonial pelo ex-marido; seu caso foi destacado em março de 2026 como exemplo de luta via Lei Maria da Penha.

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Consórcio Nordeste lança campanha contra violência à mulher

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SOBRE O EDITOR
Márcio Didier

Márcio Didier é jornalista, formado pela Universidade Católica de Pernambuco, com passagens pelo Jornal do Comércio, Blog da Folha e assessoria de comunicação

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