Quando o Coração Bobo viaja no tempo com Alceu

Entre Olinda, São João e décadas de lembranças, uma lembrança sobre convivência, música e o reencontro com o passado ao som de Alceu Valença

O clima era de euforia incontida na Rua de São Bento, em Olinda, naquela tarde de sol no outono de 1989. Na frente da casa 182, a movimentação era intensa de cabos e câmeras para a gravação de um especial com o dono da casa para uma TV europeia. Uma orquestra de frevo já entoava os hinos dos blocos olindenses e o artista plástico Zé Som se preparava para registrar em tempo real toda a movimentação em um grande tela de madeira. No interior da casa, Alceu Valença, o anfitrião, recebia a todos com alegria.

Em meio à preparação, entra o jornalista Luís Fernando Silva Pinto, então correspondente da Rede Globo em Washington, capital dos EUA. Num rolê mais que aleatório, estava de férias, curtindo o Sítio Histórico de Olinda, viu a movimentação e, como bom jornalista que é, entrou e começou a conversar com Alceu. Lá pelas tantas, o cantor se vira e chama: “Sapinho, vem cá”. Quando me aproximei, disparou: “Luís Fernando, esse é um companheiro seu de profissão”. Apertei a mão do jornalista meio sem jeito, fingindo costume, e sem alongar a conversa, afinal havia sido aprovado em jornalismo três meses antes e começaria a cursar a faculdade no semestre seguinte.

Conheci Alceu Valença pouco tempo antes daquela tarde. Eu e seu filho Ceceu estudávamos juntos no São Bento. Depois, um outro grande amigo de colégio, Luiz Henrique Pinheiro Camelo, mais conhecido como Lalau (não pelo lado perverso do apelido, mas surgido partir do seu primeiro nome) começou a trabalhar como produtor do cantor. E me chamava para uma ou outra viagem, para ajudar no trabalho, que não era pouco.

Numa delas, fomos ao São João de Caruaru, em 1989. Após a montagem do palco no Palladium, fomos para um hotel, que não era um primor de decoração, estrutura e limpeza. Ao chegar, liguei a luz do quarto, que não ligou. Lalau, então, acionou o abajur.

Como fazia muito calor naquele 23 de junho de 1989, fui ligar o ventilador (lógico que não tinha ar-condicionado). Mas só tinha a tomada da luminária. Tentamos abrir a janela, mas a fumaça das milhares de fogueiras acesas às 18h nos impediu. Ligamos para a recepção, que mandou um encarregado. Sem cerimônia, ele pegou o criado-mudo do quarto, foi ao corredor, tirou a lâmpada e colocou no nosso habitáculo. Tudo resolvido no quarto, agora com luz e ventilador. Já no corredor…

Alceu tá aquí?

Mas essas viagens da Turnê Nordestina de Alceu eram massa. No dia seguinte, deixamos Caruaru e fomos para Campina Grande. No meio da tarde, o show começou a ser montado num dos dois palcos do Forrock. Além de Alceu, a noite teria outras atrações, entre elas Beto Barbosa. Era o auge da praga da lambada e o cantor paraense era uma espécie de rei do ritmo. Naquela temporada junina, tinha feito, até aquela data, 42 shows. O sucesso rápido e a agenda cheia não permitiam aos músicos estudos mais apurados ou equipamentos modernos, como os da banda de Alceu.

Na passagem de som, o tecladista de Beto Barbosa acompanhava atento o trabalho de Tovinho, o maestro da banda de Alceu, que usava todas as tecnologias que tinha à mão, com direito a samples (sons pré-gravados). Ao passar a abertura da música Bobo da Corte (com o sample do tche, tche, tche, tche). Os olhos do tecladista de Beto Barbosa se arregalaram. Incrédulo e sem conhecer a tecnologia utilizada, indagou ingenuamente: “Alceu tá aqui? Cadê ele?”

Na noite deste sábado, mais uma vez estava na plateia de Alceu. Pensei que seria mais um, das dezenas de shows que já tinha assistido dele. Mas foi diferente, muito diferente. Nos primeiros acordes de Agalopado, o meu Coração mais sentimental do que Bobo acelerou. Embarquei numa viagem sentimental através dos anos, a partir da Estação da Luz.

Os anos vão nos tirando algumas camadas de proteção contra emoções furtivas, que por vezes nos fazem parecer mais tolos do que já somos. Em vários momentos, o que restou na minha carapaça emocional foi sendo perfurada ao longo do show 80 Girassóis, de Alceu.

Lembrei quando, aos 18 anos, dei um Cavalo de Pau e fui atrás de ganhar dinheiro. Pelas Ruas que Andei no início da adolescência, encontrei nos bares e na vida noturna um modo para me sustentar, trabalhando como caixa do Clube da Farra, do Bar Itinerante, em eventos, em produção de shows…

Pelo Espelho Cristalino da alma, chorei ao ver no telão uma foto do guitarrista Paulinho Rafael, o senhor da gentileza e da generosidade. Nos palcos, simples nos gestos e ações; na música que compartilhava com prazer, um gigante na sonoridade, tão complexa quanto singular. Nas poucas vezes que o vi saindo do roteiro austero que seguia no palco, eram para fazer, brincando, um gesto com o dedo médio para algum amigo gaiato que tentava roubar um pouco de sua atenção durante os shows (e sempre tinha um na equipe que tentava). Gentil, boa praça, Paulinho acompanhou Alceu por 46 anos e partiu cedo demais, aos 66 anos, vítima de câncer, em 2021.

O show de Alceu foi um reencontro com as várias fases de toda a minha vida. Todo mundo tem seus ídolos. Eu tenho alguns. Mas nem sempre conseguimos conviver com eles. Mesmo que por poucos meses em 1989, eu consegui. E continuo cada vez mais fã.

Muito obrogado, Alceu. Você me fez muito feliz mais uma vez.

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SOBRE O EDITOR
Márcio Didier

Márcio Didier é jornalista, formado pela Universidade Católica de Pernambuco, com passagens pelo Jornal do Comércio, Blog da Folha e assessoria de comunicação

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