Na Unicap, a boemia como diploma de vida

Por quatro anos, a turma de jornalismo TL-9 da Unicap dividia o tempo entre as aulas e os bares ao redor da unicap

No início dos anos 1990, a Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) respirava política. Estávamos na esteira da primeira eleição direta para presidente, em 1989, e, em Pernambuco, vivíamos a acirradíssima disputa pelo Governo do Estado entre Joaquim Francisco (PFL) e Jarbas Vasconcelos (MDB). Foi durante um debate entre os dois, na Unicap, que as militâncias foram às vias de fato — com direito a alguns tapinhas, outros tantos murros e centenas de empurrões. O resultado eleitoral mostrou o quanto aquele pleito foi disputado: Joaquim venceu Jarbas por 1.288.326 contra 1.088.365 votos.

Mas foi durante o processo de impeachment do presidente Fernando Collor de Mello, o primeiro eleito na redemocratização, que a política inundou de vez os corredores, a Rua do Lazer e, evidentemente, os bares que cercavam a universidade. Em agosto de 1992, uma das grandes manifestações dos Caras-Pintadas saiu justamente da Unicap. Pela concentração da Rua Afonso Pena passaram desde lideranças nacionais, como o então presidente da UNE, Lindbergh Farias, até todos os candidatos à Prefeitura do Recife. Entre eles, o jovem deputado Eduardo Campos, com uma candidatura que selou o rompimento entre Jarbas Vasconcelos (que venceu a disputa) e Miguel Arraes — mas isso é outra história.

Toda essa movimentação era um prato cheio para os alunos de Jornalismo. Tudo era motivo para uma reportagem de rua. A turma TL-9 da Unicap, por exemplo, teve que produzir uma matéria para a cadeira de TV durante essa manifestação. Estávamos todos empenhados, adorando aquele fervor. Mas toda regra tem sua exceção — por um motivo justo, claro.

Já perto da votação do afastamento de Collor, o professor Carlos Benevides, de Rádio II, deu uma missão clara: ir à Avenida Conde da Boa Vista e fazer uma enquete com seis pessoas sobre o impeachment. Com uma rara folga do Jornal do Commercio (onde eu estagiava desde 1991) e fortemente estimulado por amigos que só convidam para o bar, e nunca para a missa, resolvi dar uma de “ninja”: fui tomar cerveja no Omar Khayam, bar que funcionava em frente à Reitoria da Unicap.

No caminho, gravei com quatro estudantes. Entre um gole e outro, gravei com outros quatro na mesa do bar. Na hora marcada, lá estava eu, alardeando que havia feito duas entrevistas a mais do que o pedido. O professor Benevides apertou o play do gravador de microcassete Sony e parou aos sete segundos. Com um ar sereno, dirigiu-se a mim:

“Que lugar aprazível, essa Conde da Boa Vista. Tão calma, silenciosa, sem um barulho de carro ou buzina. Acho que vou sair da Ladeira da Sé e me mudar para lá em busca de paz…”

Notando que o rumo da conversa tava ficando complicado, interrompi: “Na verdade, gravei numa rua perpendicular a ela, de pouco movimento. A Conde da Boa Vista estava engarrafada, muita buzina, o povo gritando. O som ficou péssimo.”

Com olhar de quem não acreditou em uma palavra do que disse, e com o odor das cervejas tomadas inundando o ar, ele disparou: “Márcio, você não estava na Conde da Boa Vista. Você já sabe que não vai ganhar nota com esse trabalho, né?”

De cabeça baixa, respondi um amuado “sei”. E voltei para o Omar Khayam para afogar as mágoas com muitas cervejas.

A lambada na Unicap

O final dos anos 80 e início dos 90 também foi marcado pela “praga” da lambada (sou um péssimo dançarino, não me peça para elogiar ritmos que não sejam as músicas lentas dos anos de 1980. Aí, sim, eu sou um mestre da dança). No segundo dia de aula, em em 2 de agosto de 89, enquanto Pernambuco chorava a morte de Luiz Gonzaga, grande parte da TL-9 foi para o Bar Realce.

Ainda nos conhecendo, perguntamos quem ia beber o quê. Para surpresa e reprovação de todos, o hoje ícone do jornalismo e da boemia Lula Portela informou que não bebia. Ao som de Tchau, Tchau Amor, de Ivan Peter, e de Chorando se Foi, do Kaoma, ele fez sua estreia com duas doses de vodca e sua primeira embriaguez. Foi um batismo tímido para o que se tornou uma lenda.

A lembrança desses dias memoráveis me veio esta semana, após uma estudante de jornalismo me mandar uma mensagem, que explodiu minha cabeça.

“Me chamo Letícia Prado, sou estudante de Jornalismo da Unicap e, atualmente, estou produzindo uma matéria especial sobre a memória dos bares universitários no Recife. Uma das minhas vinculadas é sobre Lula Portela, falando um pouco sobre a presença da boemia em sua vida enquanto estudante e até mesmo depois disso. Thales (filho do jornalista Evaldo Costa) me contou um pouco sobre a relação de amizade entre vocês e que você, assim como ele, também é um cara boêmio. Pra enriquecer a matéria, pensei que uma pequena aspa de como você o enxerga nesse sentido?” Hoje bem menos boêmio, respondi contando algumas das muitas histórias de Lula.

Por quatro anos, a parte boêmia da TL-9 da Unicap se manteve unida e segue unida até hoje, no grupo de WhatsApp, com menos bares do que deveríamos e merecíamos,. Durante toda a faculdade, fizemos farras colossais, que iam além da Unicap- como a da foto, na estreia do Brasil contra Suécia, na Copa de 90 da Itália, na casa de Hélder Ferrer em Maria Farinha. Eu, cabeludo e de chapéu, chegando com os copos para a festa -, para a alegria da Antarctica, Brahma, Skol, Natasha, Montilla… Criamos laços indestrutíveis, renovados a cada vez que nos encontramos, com muito amor fraternal envolvido.

(Por ordem alfabética) André Frej, Angélica Tasso, Benita Meirelles, Cláudia, Danilo Portela, Dina Duarte, Hélder Ferrer, Isabela, Jaqueline Andrade, Lula Portela, Misael, Mônica Holanda… cada palavra deste texto tem muito de vocês. Obrigado pelos quatro anos fantásticos na Unicap e pelas décadas de memórias.

Vocês são massa!

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SOBRE O EDITOR
Márcio Didier

Márcio Didier é jornalista, formado pela Universidade Católica de Pernambuco, com passagens pelo Jornal do Comércio, Blog da Folha e assessoria de comunicação

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