Que tempos horríveis vivemos no Brasil. Em meio à epidemia de violência, uma ação coberta de preconceito e ódio mancha a imagem de um estado libertário, como é Pernambuco. A inclusão das fotos das deputadas federais Erika Hilton (PSOL-SP) e Duda Salabert (PDT-MG) em um álbum de suspeitos da Polícia Civil de Pernambuco não é um erro administrativo, é um crime institucional. Sob o pretexto de investigação, o Estado brasileiro aponta uma face perversa ao selecionar, entre milhões de pernambucanos e 513 deputados, justamente as duas mulheres trans que ocupam o Congresso Nacional para figurarem em um catálogo de criminalidade.
Não existe “coincidência”. O que existe é uma transfobia estrutural, deliberada e operada por agentes públicos que utilizam a “farda” para chancelar o preconceito.
O episódio é um escárnio diante das diretrizes do Ministério da Justiça, que proíbem o uso indiscriminado de imagens de redes sociais e exigem critérios técnicos rigorosos para o reconhecimento fotográfico. Ao ignorar esses protocolos, a Polícia Civil de Pernambuco não só afronta o devido processo legal, mas promove um “linchamento institucional” da imagem de autoridades eleitas. Quando a polícia decide quem deve ser suspeito baseando-se na identidade de gênero, ela deixa, na prática, de investigar crimes para fabricar culpados, utilizando corpos trans como o alvo preferencial de uma lógica de perseguição que deveria ter ficado no século passado, mas que insiste em persistir.
A transfobia no Brasil
O Brasil é o país que mais mata pessoas LGBTIQIA+ no mundo. Só em 2024 foram 291 mortes violentas. Nesse contexto, a atitude da polícia não é inofensiva ou brincadeira de péssimo gosto: ela é um combustível para o ódio. Ao carimbar o rosto de lideranças trans como figuras de periculosidade, o Estado envia uma mensagem clara à sociedade de que essas vidas são descartáveis e, pior, ligadas ao crime. Isso não é segurança pública. É o uso da máquina estatal para referendar as agressões e os assassinatos que a comunidade sofre diariamente nas ruas. É o Estado autorizando a violência.
Portanto, as declarações de repúdio da governadora de Pernambuco, embora necessárias, são vazias se não vierem acompanhadas de punição severa e imediata. O tempo da “nota de esclarecimento” já passou. É obrigação do Governo do Estado identificar e punir exemplarmente os responsáveis por essa sandice. Se não houver responsabilização direta, a omissão soará como conivência. A democracia não aceita que o braço armado do Estado seja utilizado como ferramenta de humilhação e transfobia. Isso não cabia antes e não cabe mais nos dias atuais.
Foto: Ilustração gerada por IA
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