A abertura do ano legislativo de 2026, na tarde desta segunda-feira (2), foi marcada pelo arrefecimento dos ânimos entre o Palácio do Campo das Princesas e a Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe). A chegada da governadora Raquel Lyra ao plenário do Prédio Miguel Arraes ocorreu sob protestos nas galerias, aplausos da base aliada e silêncio da oposição. O encontro com o presidente da Casa, deputado estadual Álvaro Porto, foi protocolar. Após um início de expectativa por confronto, os discursos migraram para cobranças institucionais, defesas de posição e apelos por diálogo, resultando em uma sessão conduzida dentro do rito parlamentar.
A sessão marcou a primeira reunião plenária ordinária de 2026 e reuniu a governadora Raquel Lyra (PSD), a vice-governadora Priscila Krause (PSD), secretários estaduais e deputados estaduais das bancadas de governo e oposição. Durante os trabalhos, foram registrados protestos nas galerias, protagonizados por servidores da Polícia Civil e por militantes pelo passe livre no transporte público.
Apesar do histórico recente de embates entre os Poderes, o ambiente do plenário evoluiu para discursos de tom institucional, com divergências apresentadas sem agravamento do confronto político.
Autonomia da Alepe reforçada
Presidente da Assembleia Legislativa de Pernambuco, o deputado estadual Álvaro Porto (PSDB) abriu oficialmente o ano legislativo defendendo a autonomia do Parlamento estadual e a necessidade de conciliar o calendário eleitoral de outubro com as pautas estruturais do Estado. Segundo ele, “esta Casa é uma caixa de ressonância dos anseios de todos os pernambucanos”.
O parlamentar destacou que, desde 2023, a Alepe aprovou todos os projetos enviados pelo Governo do Estado, incluindo autorizações para mais de R$ 13 bilhões em operações de crédito, mas afirmou que o apoio institucional não implica subordinação do Legislativo. “Não serei silente diante das agressões, não me apequenarei perante aqueles que, por motivos inconfessáveis, nos querem como um Poder subalterno”, declarou.
Álvaro Porto ressaltou que a Assembleia permanece com “as mãos estendidas ao entendimento e à conciliação”, sem abrir mão da fiscalização da aplicação dos recursos públicos. Segundo ele, zelar pelo uso adequado do dinheiro público é prerrogativa constitucional da Casa.
O presidente também citou a ampliação de programas institucionais, como Alepe Cuida, Juntos nos Cuidamos e Alepe Antirracista, além da previsão de entrega do Museu Palácio Joaquim Nabuco reformado ainda em 2026. Ao final do discurso, pediu desculpas públicas por “impropriedades” cometidas em embates anteriores e defendeu a harmonia entre os Poderes.
Raquel exalta diálogo
Ao ler a mensagem anual ao Legislativo, a governadora Raquel Lyra destacou o respeito às instituições e afirmou que disputas políticas não podem se sobrepor às necessidades da população pernambucana. Em um discurso de aproximadamente 18 minutos, a gestora apresentou um balanço da gestão e defendeu a cooperação entre Executivo e Parlamento. “O que o povo espera de nós, Executivo e Legislativo, não é barulho, distração e política pequena. É trabalho, união de propósito e coragem para construir o futuro”, afirmou.
A governadora declarou que Pernambuco encerrou 2025 entre os dez estados com maior volume de investimentos realizados no Brasil, citando a recuperação da capacidade de investimento e parcerias com o Governo Federal, municípios, lideranças comunitárias, movimentos sociais e a própria Alepe.
Na área da segurança pública, Raquel Lyra apontou que o Estado alcançou, em 2025, a menor taxa de mortes violentas da série histórica. Em infraestrutura, citou o início das obras do Arco Metropolitano, a recuperação de 1.500 quilômetros de rodovias e a concessão parcial da Compesa. No campo social, mencionou a entrega de 22 mil habitações, a ampliação do ensino integral e programas de combate à fome, como o Mães de Pernambuco e as cozinhas comunitárias. Segundo ela, “nada disso seria possível sem a parceria institucional com esta Casa”.
A governadora lembrou ainda que o início do ano legislativo inclui a análise de projetos considerados estratégicos, como alterações na Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2026 e pedidos de autorização para novas operações de crédito, que motivaram convocação extraordinária durante o recesso. “Faço aqui um chamado: que coloquemos Pernambuco acima das disputas. O futuro já começou e não pode ser interrompido”, declarou.
Oposição mantém cobranças
Líder da oposição, o deputado estadual Cayo Albino (PSB) afirmou que a bancada seguirá atuando de forma rigorosa na fiscalização das ações do Executivo estadual. Segundo ele, embora a Alepe tenha aprovado operações de crédito que somam R$ 13 bilhões, apenas R$ 3 bilhões teriam sido executados até o momento.
Para o parlamentar, o ritmo de execução não reflete a urgência apresentada pelo Governo quando solicita a aprovação das matérias. Albino também fez críticas à condução da gestão estadual nas áreas da saúde, educação e segurança pública.
Na saúde, cobrou investimentos para ampliação da rede de UPAs e hospitais, além da manutenção dos equipamentos existentes. Na educação, questionou a promessa de abertura de 60 mil vagas em creches, ressaltando que o prazo anunciado para a entrega de 250 novas vagas se aproxima sem sinais de efetivação. Na segurança pública, citou levantamento que aponta Pernambuco como o quarto estado mais violento do País e mencionou denúncias de suposto monitoramento de adversários políticos, divulgadas recentemente pela imprensa nacional.
Segundo Albino, “fiscalizar é cuidar de Pernambuco, é garantir que as leis, programas e ações não fiquem restritas ao papel, mas se transformem em políticas efetivas”.
Base governista reage
Líder do governo na Alepe, a deputada estadual Socorro Pimentel (União) defendeu a gestão da governadora Raquel Lyra e afirmou que mulheres em posições de comando enfrentam resistências adicionais no exercício do poder. “É impossível ocupar espaços de poder neste País sendo mulher sem enfrentar resistências, preconceitos e ataques”, disse.
A parlamentar destacou investimentos em hospitais regionais e citou a redução dos índices de roubos e de mortes violentas intencionais em 2025. Segundo ela, os resultados decorrem de decisões políticas, investimentos e valorização das forças de segurança.
Socorro Pimentel também rebateu acusações de interferência do Governo do Estado na atuação da Polícia Civil de Pernambuco. Para a deputada, “a Polícia Civil não age por vontade política, conveniência ou interesse partidário. Ela age com técnica, critério e dentro da lei”.
Ao final, a parlamentar defendeu a convivência institucional entre os Poderes. “Que possamos ter um ano de diálogo, maturidade política e respeito recíproco”, concluiu.
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