A retomada dos trabalhos legislativos em Pernambuco ocorre em um ambiente de elevada tensão política, com o acirramento do embate entre governo e oposição tanto na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) quanto na Câmara Municipal do Recife. O cenário é marcado por pedidos de impeachment, disputas nas comissões estratégicas e episódios recentes que ampliaram o desgaste institucional, em um contexto de antecipação da disputa pelo Governo do Estado.
Na Alepe, a oposição chega ao início do ano legislativo com domínio sobre comissões permanentes, o que tem permitido controlar o ritmo de tramitação de matérias enviadas pelo Executivo. Um dos principais focos de desgaste é o pedido de impeachment contra a governadora Raquel Lyra (PSD), apresentado pelo deputado estadual Romero Albuquerque (União Brasil). O requerimento aponta suposto crime de responsabilidade relacionado à empresa Logo Caruaruense, ligada à família da governadora.
O pedido sustenta que a empresa teria operado linhas de transporte intermunicipal sem cumprir exigências regulatórias, como vistorias obrigatórias e quitação de taxas. Após a repercussão do caso, as linhas foram devolvidas à Empresa Pernambucana de Transporte Intermunicipal (EPTI), autarquia estadual responsável pela regulação do setor, e a empresa foi encerrada. A oposição utiliza o episódio como elemento político, embora especialistas em direito administrativo apontem baixa probabilidade de avanço jurídico do pedido.
Pressão do Legislativo
Além do pedido de impeachment, o governo enfrenta dificuldades para avançar com sua pauta legislativa. Um pacote de quatro projetos encaminhado durante convocação extraordinária segue sem deliberação, reflexo da correlação de forças nas comissões da Casa. Paralelamente, a chamada CPI da Publicidade, que investiga contratos de comunicação do Executivo estadual, permanece como instrumento de pressão política, sem arquivamento formal.
O ambiente de confronto ganhou novos contornos com episódios externos à Alepe, mas que tendem a repercutir no plenário. Um deles envolve a revelação do monitoramento de um secretário da Prefeitura do Recife, fato que motivou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, a determinar que a Polícia Federal apure a atuação da Polícia Civil de Pernambuco. Os parlamentares da oposição estadual têm explorado o episódio como sinal de fragilidade institucional no Estado.
Raquel Lyra x Álvaro Porto
O confronto político na Alepe tem como eixo central a relação entre a governadora Raquel Lyra e o presidente da Casa, deputado estadual Álvaro Porto (PSDB). Antigos aliados partidários, os dois romperam politicamente ainda em 2023. A crise se aprofundou após a intervenção da direção nacional do PSDB, que entregou o comando estadual da legenda a Porto, levando à saída de Raquel Lyra e de dezenas de prefeitos.
Em 2024, um episódio simbólico marcou o distanciamento: durante a abertura do ano legislativo, o microfone da TV Alepe captou uma fala do presidente da Casa ironizando o discurso da governadora. Ao longo de 2025, Álvaro Porto passou a adotar um discurso recorrente de críticas à gestão estadual, com foco em temas como execução orçamentária, pagamento de emendas parlamentares e capacidade de entrega do governo.
Aliados da governadora evitam confirmar sua presença na sessão de reabertura dos trabalhos. A ausência, caso se confirme, será interpretada politicamente em um ambiente já marcado por hostilidade institucional.
Câmara do Recife
Na Câmara Municipal do Recife, o clima é menos conflagrado, mas também não isento de tensão. O prefeito do Recife, João Campos (PSB), é alvo de um pedido de impeachment apresentado pelo vereador Eduardo Moura (Novo). A denúncia aponta suposta fraude na nomeação de um procurador municipal em vaga destinada a Pessoa com Deficiência (PCD), alegando violação aos princípios da impessoalidade e da moralidade administrativa.
Apesar da repercussão, João Campos conta com ampla maioria na Casa, o que reduz a possibilidade de avanço do pedido. Ainda assim, o episódio passa a integrar o debate político estadual, sobretudo na Alepe, onde o prefeito é tratado por setores da oposição como principal adversário eleitoral de Raquel Lyra.
Com pedidos de impeachment, CPIs mantidas como instrumentos de pressão e disputas partidárias em curso, o Legislativo pernambucano inicia o ano legislativo em um ambiente de confronto permanente. Mais do que debates sobre políticas públicas, a dinâmica institucional aponta para um cenário em que cada episódio administrativo passa a ser incorporado à disputa política que se desenha para 2026.
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