Olinda transforma o Carnaval em improviso institucional

Falta de planejamento, silêncio institucional e improviso marcam a organização do Carnaval de Olinda a menos de 15 dias da abertura

Em 15 dias, as ruas estreitas da Cidade Alta de Olinda serão tomadas por centenas de milhares de foliões, vindos de todas as partes para viver o reinado de Momo. O Carnaval integra o calendário permanente de festejos de Pernambuco e representa o principal evento cultural e econômico do município. Ainda assim, a cada ano, a Prefeitura de Olinda se comporta como se consultasse um calendário paralelo, no qual a festa só passa a existir faltando duas semanas para começar e corre para colocar a festa na rua.

O resultado desse atraso crônico é um cenário de caos total, de despreparo absoluto para a principal e mais rentável festa da cidade. Neste domingo (1º), o descontrole urbano era evidente no Sítio Histórico: ambulantes avançando sobre os foliões com carrinhos cada vez maiores, acúmulo de lixo, circulação de carros e motos no meio dos blocos e número insuficiente de agentes públicos tentando, sem êxito, restabelecer algum nível mínimo de organização.

Outro sinal do desmantelo administrativo é que, a apenas 12 dias da abertura oficial, o cantor Alceu Valença está anunciado para se apresentar no palco da Praça da Preguiça, mas nenhuma estrutura começou a ser montada (foto deste domingo). Para efeito de comparação, o Recife iniciou a montagem do palco do Marco Zero há mais de duas semanas. Em Olinda, a única estrutura aparente é o coreto da Praça da Preguiça. Vai que a Prefeitura decidiu inovar e realizar o show ali.

Por falar em atrações, a fragilidade do planejamento também se reflete na programação artística. Até o momento, a Prefeitura anunciou apenas dois nomes que irão se apresentar (Alceu Valença e Raphaela Santos) durante o Carnaval. Também não há divulgação oficial sobre como funcionará o esquema de trânsito, se haverá mudanças na dinâmica da festa, se existirão novidades na programação ou mesmo se a cidade contará com decoração temática — inexistente até agora.

Ruptura institucional

Diante desse cenário de improviso, entidades e representantes da sociedade civil começam a se afastar do processo. Após a vereadora Eugênia Lima, que deixou a Comissão Permanente do Carnaval alegando que o colegiado não se reunia desde novembro do ano passado, agora foi a vez da Sociedade Olindense de Defesa da Cidade Alta (Sodeca) anunciar sua saída da comissão responsável pela organização do Carnaval de 2026.

Em nota pública, a Sodeca — entidade que representa moradores do Sítio Histórico — afirma que a decisão decorre da postura da Prefeitura de Olinda, que vem “desconsiderando os trâmites legais, o diálogo institucional e os espaços de participação da sociedade civil” na condução do Carnaval. O documento também aponta falta de respeito ao patrimônio cultural e à qualidade de vida dos moradores de uma área reconhecida como Patrimônio Mundial pela Unesco.

Carnaval improvisado

A soma de silêncio institucional, improviso administrativo e afastamento da sociedade civil organizada revela um problema que vai além da organização do Carnaval. Trata-se de uma gestão que, após nove anos no poder, não consegue planejar, dialogar, comunicar nem executar políticas públicas básicas para o maior evento da cidade.

O que se vê em Olinda não é falta de tempo, mas falta de gestão. Não é ausência de recursos, mas ausência de comando. E não é desconhecimento técnico, mas desprezo continuado pela participação social, pelo patrimônio histórico e pelos moradores que convivem o ano inteiro com os impactos da festa.

Se o Carnaval de Olinda ainda resiste, não é por mérito da Prefeitura, mas apesar dela. E quando entidades históricas, criadas para defender a cidade, se retiram formalmente dos espaços institucionais por falta de diálogo, o recado é inequívoco: a Prefeitura de Olinda perdeu o controle do planejamento, perdeu a escuta e perdeu o respeito. O que ainda não perdeu — e não pode perder — é a responsabilidade pelo caos que insiste em tratar como tradição.

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SOBRE O EDITOR
Márcio Didier

Márcio Didier é jornalista, formado pela Universidade Católica de Pernambuco, com passagens pelo Jornal do Comércio, Blog da Folha e assessoria de comunicação

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