Eita, Wal! Precisava ir tão cedo?

Waldemar Borges deixa um legado de integridade e compromisso com a vida pública. A política perde um exemplo; eu perco um amigo

Era o início da tarde de 2 de abril de 2015. Tinha acabado de fazer o programa Folha Política, na Rádio Folha. Peguei o telefone e perguntei: “Ainda dá para eu ir?” Do outro lado da linha, a voz respondeu: “Venha simbora, dá sim!”. Peguei o carro sai com destino a Gravatá. Atendia a um convite do deputado estadual Waldemar Borges, a voz do outro lado da linha.

Ele não havia chamado ninguém da imprensa para o almoço que ofereceria ao então governador Paulo Câmara. Eu seria o único, o que me rendeu duas páginas na edição do dia seguinte da Folha de Pernambuco com uma entrevista com o governador, em que o foco indigesto era o aumento nos índices de criminalidade da época e a crise do Pacto pela Vida. Quando fui agradecer a deferência, Wal, como o deputado era conhecido, disse que eu tinha sido convidado não por ser jornalista, mas “na qualidade de amigo”.

Waldemar se foi na tarde nublada deste sábado (4), em plena Copa do Mundo, quando o Marrocos despachava o Canadá pela Copa do Mundo.

O jornalismo tem suas perversidades. Uma delas, e a mais cruel, é ter que noticiar a partida das pessoas que você gosta muito, dos amigos.

Quem me conhece, já me ouviu dizer, em algum momento, que tenho poucos amigos na política. Conto, talvez, em uma mão. Mantenho a distância regulamentar, necessária para o exercício da profissão.

Mas Wal era um desses amigos. E talvez o pior deles para um jornalista, porque sempre me negava a informação. Quando eu tentava confirmar alguma notícia, ele enrolava, enrolava… Era Sapinho para cá, Sapinho para lá, mas não dizia nada. Sabia que, se dissesse, havia a possibilidade de chegarem a ele, o líder do Governo na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe).

E era assim que ele me tratava: Sapinho. Um diminutivo do meu apelido que pouquíssimos políticos utilizam. Wal era um deles.

Éramos amigos há mais de 37 anos, antes mesmo de eu começar a cursar jornalismo. Eu era caixa do Clube da Farra, um bar que reunia a maior e melhor boemia do Recife no final dos anos de 1980 e início dos anos de 1990, e ele um frequentador assíduo. De tanto visitar o bar ao lado do amigo inseparável Marcelo Canuto, afinamos a nossa amizade. Ao final de cada noite, ou quando o dia começava a clarear, me entregava a comanda e pedia para colocar no CredFarra, um “pendura” formal que existia no bar. Nossa amizade vem dali, da noite, da boemia. Sempre regada com boas gargalhadas, provocações e tiradas inteligentes de Wal.

Aposta com Wal

Certa vez, na Alepe, me provocou dizendo que eu tava “inchadinho”. Aproveitei a oportunidade para lançar uma aposta. Quem, ao final do ano, perdesse mais peso, ganharia. O prêmio, uma garrafa de gim se eu vencesse, ou uma de vodca, se ele fosse o vencedor. Mas tinha uma condição: independente do resultado, teríamos que tomar juntos.

Nem é preciso dizer que nós dois perdemos, e transformamos a nossa aposta em uma confraternização de fim do ano, em Gravatá. Por horas, um grupo de amigos ocupou o “Spa do Fígado”, apelido que deu a um terraço com uma vista espetacular para o vale na Serra do Maroto.

Quase sempre que estava em Gravatá nos feriados fazia questão de visitá-lo, sendo sempre muito bem recebido. Até porque Wal tinha aquela latinidade despreocupada, uma figura extremamente agradável, que agregava, que nos fazia sentir acolhidos. Não tinha fricote, frescura, essas leseiras. Era íntegro, correto, firme, de palavra, por isso era respeitado até pelos adversários. Tipo de político cada vez mais difícil de encontrar.

Na sexta-feira (3) à noite, fui ao hospital visitá-lo. Ele dormia. Quando Luciana Santos disse que o Sapo estava no quarto, abriu os olhos rapidamente e os fechou. Eu precisava fazer a visita que havia prometido na Semana Santa e que não fiz.

No quarto, o silêncio substituiu as gargalhadas e as provocações de sempre e as lembranças inundaram o meu cérebro. Wal se foi neste sábado à tarde, cinco dias antes de completar 68 anos, e deixa a certeza de que a política perdeu um homem de palavra e eu perdi muito mais: perdi um grande amigo.

Siga em paz, Wal.

P. S. Deixo aqui um abraço apertado a Luciana e aos filhos Walzinho, Mariana e Luana. E agradeço a Ida Comber pelo apoio.

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SOBRE O EDITOR
Márcio Didier

Márcio Didier é jornalista, formado pela Universidade Católica de Pernambuco, com passagens pelo Jornal do Comércio, Blog da Folha e assessoria de comunicação

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