A engrenagem política da família Bolsonaro, que sempre flertou com o limite do risco calculado, parece estar patinando em uma sequência de erros táticos difíceis de justificar no marketing político tradicional.
O caso do filme Dark Horse é a primeira grande bronca dessa narrativa. Ao tentar criar uma “obra épica” para inflamar a militância, a estratégia acabou jogando luz sobre os bastidores financeiros da família. A exposição do vínculo com o banqueiro Daniel Vorcaro, a quem o pré-candidato Flávio Bolsonaro chama em áudio de “irmãozinho”, vulnerabiliza o discurso de “outsider” e de combate ao sistema político e financeiro tradicional que o grupo historicamente sempre adotou. Para a pré-candidatura de Flávio, o episódio adiciona um desgaste desnecessário em um momento em que ele precisaria de blindagem, e não de questionamentos sobre financiamentos milionários.
Os Bolsonaros e Trump
A engenharia dessa crise se aprofundou com a agenda nos Estados Unidos. A foto protocolar ce insossa om o presidente Donald Trump, que deveria funcionar como uma demonstração de prestígio internacional e força geopolítica, foi esvaziada em tempo recorde pelo anúncio da sobretaxa americana de 25% sobre os produtos brasileiros. O timing não poderia ter sido pior. O eleitorado, mesmo o mais ideológico, tende a priorizar o bolso. Fazer palanque ao lado do líder que chancela uma medida que pune a economia nacional cria um ruído de narrativa perigoso, onde o alinhamento ideológico se sobrepõe aos interesses do próprio país.
Para coroar o desmantelo tático, a defesa feita por Eduardo Bolsonaro da substituição do Pix pelo sistema americano Zelle beira o suicídio político. O Pix é uma das raras unanimidades nacionais em um país extremamente dividido pela política, uma ferramenta que desburocratizou a vida de milhões de autônomos e cidadãos de todas as classes sociais.
Sugerir a troca por um modelo pago e restrito a alguns bancos rompe o cordão umbilical do bolsonarismo com a base popular. Diante de tantos desacertos, das duas uma: ou há um blefe coordenado com Washington para que eles se vendam como os “salvadores da pátria” que reverteram as tarifas na última hora, ou o pragmatismo político deu lugar a um isolamento em uma bolha ideológica tão profunda que os desligou da realidade prática do eleitor brasileiro.
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