A noite que fez o Brasil acreditar no impossível. Obrigado, Oscar!

A épica vitória do Brasil sobre os EUA no Pan de 1987 teve Oscar Schmidt como protagonista, marcando 46 pontos em atuação histórica e virando espelho para um país

Os atletas amadores do Colégio de São Bento, em Olinda, estavam eufóricos no treino daquela segunda-feira, 24 de agosto de 1987. A maioria deles tinha ficado acordado até a madrugada acompanhando o Brasil fazer história, na maior e mais justa acepção da palavra. Acompanharam vidrados a maior virada da história do basquete brasileiro, quando o Brasil derrotou a poderosa seleção dos Estados Unidos por 120 a 115, no Market Square Arena, em Indianápolis, Indiana (EUA), conquistando o Pan-Americano de 1987. Nunca os americanos haviam perdido um torneio em casa. Os responsáveis pela vitória épica foram Oscar Schmidt, que converteu 46 pontos, e Marcel de Souza.

Quem não acompanhou ao vivo aquela partida, não tem a dimensão daquele feito. No dia seguinte, retalhos da vitória eram contados pelos atletas no São Bento: “Tu viesse, Oscar meteu todas as bolas”; “Oscar caiu chorando na quadra quando o jogo acabou”; “achei arretado Oscar pegar o ‘chuá’ (a redinha do aro) e colocar no pescoço”. A vitória tinha sido coletiva, mas a história foi escrita por um herói: Oscar.

Assim como Pelé para o futebol, ninguém moldou tantos atletas no Brasil como Oscar. Era a personificação da raça e da eficiência no basquete.  Para Oscar, a cesta não era apenas um alvo; era o destino final de uma vida dedicada à perfeição.

Oscar e a “mão treinda”

Ele se tornou uma lenda, rejeitando o misticismo do apelido “Mão Santa”. Com o rigor de quem conhece o preço da glória, ele sempre corrigia: dizia ter, na verdade, uma “mão treinada”. Afinal, a magia não caía do céu; ela era forjada no silêncio do ginásio, onde, após o fim de cada treino oficial, ele permanecia solitário para converter entre 500 e mil arremessos. Oscar provou que o talento, sem essa disciplina férrea, é apenas uma promessa, e fez de cada “chuá” uma resposta ao esforço exaustivo.

Sua grandeza transcendeu as estatísticas para se tornar um legado vivo, membro do Hall da Fama da NBA, sem nunca ter participado do torneio norte-americano. Ele foi o herói que humanizou o ídolo ao não ter vergonha de chorar, como fez na quadra de Indianápolis, mostrando que a glória é, acima de tudo, um desabafo de quem deu tudo de si. Ao vestir a rede do aro como um colar, ele não apenas celebrou um título, mas coroou uma era onde o Brasil, inspirado por sua audácia, olhou o mundo de cima, sem medo e sem reverência excessiva aos seus gigantes adversários.

Inspirados por essa chama inabalável, os jovens atletas do São Bento não viam apenas um jogador na televisão, mas um espelho de quem desejavam ser, entre eles, eu que sempre usei a camisa 14 em sua homenagem.

Nos treinos que se seguiram àquela noite histórica, cada tentativa de arremesso no ginásio de concreto do São Bento em Olinda era uma busca por aquela mesma precisão técnica. Havia uma felicidade genuína em cada gota de suor e em cada salto, pois todos, contagiados pelo ídolo, queriam perseguir o êxito de Oscar, compreendendo que a mão só se torna santa quando é, antes de tudo, incansavelmente treinada.

Foto: Reprodução do Facebook

  • Com o texto sobre Oscar, retomo meu projeto de Crônicas do Sapo. Até o proximo sábado

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SOBRE O EDITOR
Márcio Didier

Márcio Didier é jornalista, formado pela Universidade Católica de Pernambuco, com passagens pelo Jornal do Comércio, Blog da Folha e assessoria de comunicação

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