A confiança é uma das bases para qualquer núcleo social. Sem ela, tudo começa troncho, enviesado, e os consensos se tornam uma raridade. A relação entre o Governo do Estado e a Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) está sofrendo desse mal, tendo ao fundo a disputa eleitoral cada vez mais próxima. Não faz qualquer sentido chegar a quase três anos e meio da gestão estadual e da atual legislatura da Casa de Joaquim Nabuco e os dois lados estarem buscando artimanhas para vencer a disputa em cada projeto pautado.
O comando da Alepe insiste em dizer que todos os projetos enviados pelo Executivo foram aprovados na Casa, o que é verdade. Mas também é preciso dizer que muitas das principais pautas só são aprovadas com muita peleja, diferentemente de legislaturas anteriores.
Do outro lado, o Legislativo acusou o governo de, ao longo dos últimos anos, atrasar o pagamento de emendas parlamentares, coisa que o Executivo nega e garante que as que não foram pagas tinham problemas que impediam a quitação. Outro ponto de desacordo foi o fato de a gestão estadual ter demorado para autorizar um remanejamento de orçamento, uma determinação da lei. O pedido feito pela Alepe em agosto de 2025 só foi atendido em dezembro, dentro do pacote acordado para a votação da Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2026.
Na Alepe, a LOA da discórdia
E é essa LOA que concentra o principal embate atualmente. Quando foi aprovada no final de dezembro do ano passado, um raro clima de paz pairou pelo plenário, com direito a uma foto de todos os deputados posando com o presidente da Casa, Álvaro Porto, segurando a lei aprovada. “Parecia a Santa Ceia”, brincou um parlamentar governista, se referindo à imagem eternizada no quadro “A Última Ceia”, do italiano Leonardo da Vinci.
De “santa”, a LOA se transformou numa guerra e o clima de desconfiança ganhou mais força na Alepe. O relator da matéria na Comissão de Finanças, Antonio Coelho, colocou vários “jabutis” (inclusão de matérias, emendas ou assuntos estranhos ao texto original) na lei orçamentária enviada pelo Executivo. Entre eles, o que reduzia de 20% para 10% o limite de remanejamento da LOA. Agora governista, Coelho colocou outro jabuti, desta vez no Projeto de Lei Ordinária (PLO) nº 3993/2026, que autoriza a abertura de crédito suplementar de R$ 155 milhões para o Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE). E a Alepe vai vivendo de artimanhas.
O que é péssimo nesses impasses todos é que Pernambuco fica feito cachorro, correndo atrás do próprio rabo, enquanto outros estados como a Bahia e, principalmente, o Ceará vão ganhando espaço antes ocupado pelos pernambucanos.
Uma prova disso é a Ferrovia Transnordestina. No final do governo Jair Bolsonaro, em 2022, o trecho do Estado foi expurgado do traçado original. No Governo Lula, pelo menos no papel, Pernambuco foi reintegrado ao projeto. Mas pouca coisa andou. Não há uma movimentação organizada dos políticos para garantir a retomada efetiva da obra. E se ela não sair, o Estado ficará isolado na região, com o Porto de Suape subutilizado.
Essa é a briga boa, que deveria unir toda a classe política em torno de uma pauta estruturadora para Pernambuco. Se não for assim, corre o sério risco de daqui a pouco não vai ter mais nada para brigar.
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