A chuva testa limites e cobra ação dos gestores

Diferenças nos investimentos e falta de transparência agravam riscos urbanos durante as chuvas, principalmente em Olinda e Paulista

A chuva é um grande adversário das administrações em Pernambuco e continuará sendo, enquanto não for encarada com a urgência que ela demanda. E muitas vezes mesmo a urgência não é o suficiente. Diz a sabedoria popular que “a água sempre acha um caminho”. E a tragédia do Pilar no Recife, na noite desta segunda-feira (6), mostra exatamente isso. Não era num morro, mas sim numa superfície plana, num local que diariamente passam vários carros e a poucos metros da prefeitura. Não era um morro, mas uma construção desabou matando duas pessoas.

É importante lembrar o trabalho que a Prefeitura do Recife vem fazendo na contenção de encostas, onde já realizou mais de 150 obras de contenção em toda a cidade e atuando para conter pontos de alagamentos crônicos no município. Mas a água é sorrateira e difícil de controlar.

Se Recife enfrenta problemas mesmo tendo investido R$ 322,9 milhões na sua Operação Inverno em 2025 e projetando para este ano R$ 381 milhões, imagina Olinda que nem cita o valor de investimento e Paulista, cujo prefeito home office Ramos, nem sai de casa.

Silêncio é amigo das chuvas

Esse silêncio orçamentário não é um detalhe técnico — é um sintoma. Quando Olinda e Paulista não explicitam quanto investem para enfrentar um problema recorrente e previsível como as chuvas, deixam de prestar contas à população e, principalmente, dificultam qualquer avaliação concreta da eficácia das ações. Falar em limpeza de canais, desobstrução de galerias ou colocação de geomantas sem associar essas iniciativas a metas, prazos e valores transforma a gestão pública em um exercício genérico, incapaz de responder à dimensão real do risco enfrentado por milhares de pessoas.

Mais do que obras pontuais ou ações emergenciais, o que está em jogo é a capacidade de planejamento e transparência das administrações. A chuva não é surpresa no calendário pernambucano, tampouco seus efeitos devastadores. Ignorar isso — ou tratar o tema sem a devida clareza sobre investimentos — é aceitar que novas tragédias continuarão acontecendo. No fim, a diferença entre enfrentar ou apenas reagir às chuvas está menos no discurso e mais na prioridade política traduzida em números, planejamento e execução consistente.

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SOBRE O EDITOR
Márcio Didier

Márcio Didier é jornalista, formado pela Universidade Católica de Pernambuco, com passagens pelo Jornal do Comércio, Blog da Folha e assessoria de comunicação

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