O Senado e o exercício de coragem

Disputa pelo Senado em Pernambuco em 2026 reúne ex-candidatos de 2022 e as possibilidades de cada um desafiam a matemática (1)

A eleição para o Senado em Pernambuco vai ser um exercício de coragem para encarar uma disputa que a matemática já aponta para os diversos riscos. A permanecer a configuração anunciada nesta quarta-feira (18), pelo menos um, senão dois ou três, dos ex-candidatos ao Governo em 2022 sairá (ão) da disputa de outubro com o capital político bem reduzido, com o risco real de permanecer mais quatro anos na planície, fazendo todo tipo de malabarismo para mostrar que está vivo politicamente.

Num mesmo dia, Marília Arraes (PDT), Miguel Coelho (União) e Anderson Ferreira (PL) reafirmaram que disputarão as duas vagas para o Senado. Se tudo der certo e a campanha engrenar, pelo menos um deles já fica pelo caminho. Mas há um agravante: todas as pesquisas apontam Humberto Costa em uma condição relativamente tranquila na disputa, sendo o candidato do presidente Lula num estado em que o petista tem grande uma força eleitoral grande. Ou seja, há o risco de três disputarem uma vaga. E vão buscar mostrar que têm os atributos necessários para integrar a Câmara Alta a partir de 2027.

Dos três, a que possui uma situação, teoricamente, mais confortável é Marília Arraes. Líder em todas as pesquisas de opinião, ela usou os números favoráveis para pressionar pela indicação. Inclusive abriu conversas para no palanque de Raquel Lyra. Terminou sendo anunciada na chapa liderada por João Campos, uma solução mais tranquila para ela, pois está no mesmo palanque do presidente Lula e não precisou retomar uma briga em família, com um novo rompimento com o primo. Contra ela, pesa o retrospecto das duas últimas disputas, em que venceu no primeiro turno para a Prefeitura do Recife e Governo do estado, mas foi derrotada na segunda etapa. Aliados lembram que, para o Senado, só há um turno. Ah, tá.

Miguel Coelho retornou ao campo político de Raquel Lyra, que abandonou em 2023 para se aliar ao prefeito João Campos.  Chegou a ser cogitado para ser um dos companheiros de chapa do socialista. Mas ao afunilar as articulações para a disputa de outubro, acabou ao lado de Raquel. Tem força política no Sertão do Estado, foi quinto colocado na disputa pelo Governo do Estado em 2022, e a família tradição no Senado, com Nilo Coelho eleito no final dos anos de 1970 e o seu pai, Fernando Bezerra Coelho, eleito em 2014.

A lição da história no Senado

O que pode prejudicar o desempenho é o outro companheiro do Senado. Em 1986, Roberto Magalhães, que meses antes deixou o Governo do Estado bem avaliado, foi dormir eleito para o Senado e acordou derrotado. Tinha como companheira de chapa Margarida Cantarelli, que não agregava muito eleitoralmente, e foi engolido pela chapa liderada por Miguel Arraes, que fez os dois senadores, Mansueto de Lavor e Antônio Farias.

O terceiro nome anunciado nesta quarta-feira foi o de Anderson Ferreira, que também disputou a eleição de 2022, chegando na terceira posição. Ele busca surfar na onda do bolsonarismo, que teve cerca de 30% do eleitorado na eleição passada. Mas o primeiro dos problemas dele é justamente esse. Enquanto Bolsonaro e Gilson Machado, que disputou o Senado, tiveram cerca de 30% dos votos válidos, ele teve 18,15%. Ou seja, não engajou o bolsonarismo na sua candidatura. Além disso, tem o fato de ainda não ter uma candidatura ao Governo no seu campo. Nunca houve uma candidatura solo ao Senado bem-sucedida em Pernambuco.

Com o cenário colocado, o que talvez tenha uma perspectiva melhor em caso de derrota nas urnas, é Miguel Coelho, que pode voltar a comandar Petrolina, cidade que detém altos índices de aprovação. Marília e Anderson, em caso de insucesso, terão que se reinventar até a próxima disputa, com o risco de caírem no esquecimento.

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SOBRE O EDITOR
Márcio Didier

Márcio Didier é jornalista, formado pela Universidade Católica de Pernambuco, com passagens pelo Jornal do Comércio, Blog da Folha e assessoria de comunicação

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