Dona Lucrécia, o álibi dos netos. Até que um dia…

O número 599 da Avenida Sigismundo Gonçalves era uma festa, na segunda metade década de 1980. A proximidade com o Colégio de São Bento, que ficava a dois quarteirões, acabou por transformar aquele endereço em um ponto de apoio dos amigos dos dois adolescentes, fim de rama de cinco irmãos, que moravam lá.

Diariamente era um entra e sai frenético. Havia o grupo do neto mais velho entre os homens, Robertinho. Tinha Urubu, espaçoso, que chegava gritando Dona Lucra, se referindo a Dona Lucrécia, avó dos irmãos e que observava e registrava na mente todos os movimentos da casa. Dava conta de tudo.

Tinha Otto, que bem antes de ser cantor de sucesso era um excelente jogador de futebol de salão, e ia para lá enquanto aguardava o horário do treino. Tinha Cacá, amigo de infância, sempre cordial e respeitador. Tinha Titela, como era chamado Roberto Jorge Manchester de Queiroga, que perdia o amigo, mas não a piada.

Da turma do neto mais novo, Márcio, tinha o Veio Sérgio Moura, que quando bebia até uma folha o derrubava. Tinha Fred, que tomava cerveja feito água. E ainda toma. E só Brahma. Tinha Rodrigo Faniquito, que adorava uma greia. Hoje é um advogado respeitado.

De boa com a turma, até que…

Era uma turma massa. Dona Lucrécia gostava de todos eles. Mesmo quando era alvo das pilhérias do grupo. Ainda assim, não chegava a ficar irritada. No máximo, chateada. Mas isso passava no momento seguinte.

A única vez que ela realmente ficou irritada foi em 1988. Robertinho trabalhava para a campanha de Joaquim Francisco a prefeito do Recife, na época. Rotina intensa, todos os dias no vai e vem pelo Recife, sem espaço para um descanso.

A boate Sete Colinas funcionava na cobertura do então luxuoso Hotel Quatro Rodas. Era fantástica, um sucesso naqueles fins dos anos 1980 e início dos anos de 1990. Abria a pista ao som de Frank Sinatra cantando New York, New York e a festa rolava até a manhã, para que as pessoas pudessem aproveitar o nascer do sol.

Pois bem, foi lá que Robertinho foi acabar seu dia puxado de campanha, ao lado do amigo de trabalho Pino Boy. A noite foi se tornando madrugada. Pino foi embora, pois tinha labuta no dia seguinte. “Eu vou já”, disse Robertinho, que ficou, ficou, ficou, até chegar em casa nas primeiras horas da manhã.

Cansado da rotina puxada de trabalho e com algumas doses de uísque na cabeça, chegou para Dona Lucrécia e disse: “Vovó, se alguém ligar para mim, diga que eu passei a noite toda mal, com diarreia e vomitando”. Recado recebido e anotado por aquela idosa senhora.

O telefonema do destempero

O telefone da casa tocou próximo das 8h. Não existia celular, à época. “Dona Lucra, chama Robertinho para eu acertar a hora que a gente vai sair”, disse Pino Boy, do outro lado da linha.

“Olha, Pino, eu não vou chamar Robertinho, não. Ele teve uma noite horrível. Teve diarreia e vomitou várias vezes durante a noite. Ele não vai ter condição de sair de casa de forma nenhuma”, respondeu Dona Lucrécia, com uma voz piedosa de quem teria visto o neto sofrer por toda a noite.

 Aos gritos, Pino Boy disparou: “VELHA CASCATEIRA. Eu estava com Robertinho durante a noite. Ele não tá doente porra nenhuma”.

Do outro lado da linha, Dona Lucrécia não deu um pio. Largou o telefone, foi ao quarto, acordou Robertinho e ordenou: “ACORDE. ACORDE. Vá atender o telefone. Eu tenho 77 anos e não tenho mais idade de ser chamada de cascateira. Vá lá falar com Pino Boy”.

Depois desse dia, vovó Lucrécia nunca mais acobertou as trelas minhas e do meu irmão, Robertinho. Perdemos, daquele dia em diante, até a sua morte em 1994, o um excelente álibi.

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2 respostas

  1. Boas histórias com D. Lucrécia. Saudades dela e do meu Amigo Alexandre Cruse (saudoso Pino Boy). Que Deus os tenha em Bom Lugar!!!
    P.S. D. LUCRÉCIA tem muitas mais histórias vi!!!!

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SOBRE O EDITOR
Márcio Didier

Márcio Didier é jornalista, formado pela Universidade Católica de Pernambuco, com passagens pelo Jornal do Comércio, Blog da Folha e assessoria de comunicação

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