Entre viagens e perrengues, a busca da felicidade

Márcio Didier

Maria Cordeiro demorou para ganhar o mundo, a viajar. Uma tragédia a levou a mudar a forma de encarar a vida.

O relógio passava das 16h, quando voltava para casa com uma sacola cheia de enfeites de Natal, naquele 24 de novembro de 2009. Na frente de sua casa, ambulância, carro da polícia e o genro saindo de carro com a neta. No pátio de entrada da casa, João, o companheiro de longos anos, estava lá, sem vida, após uma queda. Treloso, havia subido para limpar a calha de uma jardineira, perdeu o equilíbrio e despencou de pouco mais de três metros de altura.

Cordeiro encontrou na sua fé espírita e na família o acolhimento necessário para superar a dor da perda do homem com o qual dividia a vida há décadas.  E nas viagens com os filhos e netos achou uma nova forma de ver a vida.

E essa história é sobre as viagens de Cordeiro e os eternos problemas nos embarques e imigração.

Cerca de um ano e meio depois da morte do marido, em 2011, lá estava ela, com malas prontas para a primeira viagem internacional, ao lado da neta de quatro anos, filha e genro. O destino, Buenos Aires, na Argentina, e Santiago, no Chile. Uma semana de alegria para aquela senhora então com 73 anos, nascida em Jenipapo, no município de Belo Jardim.

Primeiro perrengue

No embarque para Santiago, o primeiro perrengue internacional. Dona Cordeiro é uma mulher prevenida. Gosta de ter à mão a solução para qualquer problema que possa surgir. Acontece que isso trouxe problema no raio-x do Aeroporto de Ezeiza, na Argentina. O policial pediu para ela abrir a bolsa. Sem entender o que ele falava, demorou um pouco, irritando o funcionário da alfândega. Até que a filha interveio e explicou que a tesourinha de ponta fina que ela carregava na bolsa tinha que ser despachada. Como isso não foi feito, teria que jogar no lixo o seu utensílio, de utilidade questionável num voo.

Dois anos depois, a conquista da Europa. Após 19 dias entre França e a Itália, estava pronta para embarcar para a penúltima etapa da viagem, Portugal. No Aeroporto de Malpensa, em Milão, o detector de metais apita, na sua passagem. Tira o sapato e a máquina apita de novo. Tira os brincos, e novo apito. A policial, então passa a fazer a revista com um detector de metais manual, que apita ao passar do lado esquerdo do corpo, na altura do quadril. Dona Cordeiro temia enjoos ou, eventualmente, cheiros desagradáveis no voo. Sempre prevenida, colocou um potinho de metal de Vick Vaporub na lateral da calça. O lixo de Milão ganhou uma pomadinha.

Cachorro ensandecido

E não parou por aí. No ano seguinte, após alguns dias em Santiago, no Chile, uma encantadora viagem de ônibus cruzando as lindas paisagens da Cordilheira dos Andes. O destino, a charmosa Mendoza (Argentina), para um tour em suas bodegas de vinho. Após quatro agradáveis dias, o retorno para Santiago. Como a viagem duraria seis horas, sua filha separou algumas frutas para comer no caminho, mas alertou que deveriam ser consumidas até a fronteira. O Chile é muito rigoroso com o que entra no país. Na Alfândega, a filha e o genro foram chamados a explicar por que estavam com nove garrafas de azeite na mala. Quando conversavam com os agentes, um pastor alemão imenso começou a pular ensandecido sobre Dona Cordeiro. Assustada e sem entender espanhol, olhou para a filha, que mandou ela abrir a bolsa. De lá, o policial que segurava o cachorro retirou uma banana, que ela havia guardado para a última etapa da viagem.

E assim Dona Cordeiro vai levando a vida. Depois da partida do companheiro, conheceu uma série de outros países. Hora com uma filha, hora com outro filho, mas sempre em busca de novas aventuras.

Não para

Na próxima quarta-feira (20), Dona Cordeiro, minha sogra, completa 86 anos. Diz estar cansada para viajar. Mas neste final de semana encarou a estrada e está no município de Vertentes, distante 184 quilômetros do Recife, para o aniversário de uma amiga.

Felizmente não há imigração até lá.

Feliz aniversário, minha sogra.

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SOBRE O EDITOR
Márcio Didier

Márcio Didier é jornalista, formado pela Universidade Católica de Pernambuco, com passagens pelo Jornal do Comércio, Blog da Folha e assessoria de comunicação

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