Márcio Didier *

O ano de 2001 foi marcado por uma série de eventos, o principal deles marcou a história do mundo, que foi o ataque ao World Trade Center, em Nova York. No Brasil, as perdas de Jorge Amado e Cássia Eller deixaram a nossa cultura mais pobre. Em Pernambuco, um personagem que por décadas foi um ator importante da nossa política reencontrava a estrada, após uma derrota avassaladora para o seu principal rival.

Depois maturar o resultado das eleições de 1998, quando Jarbas Vasconcelos colocou uma diferença de um 1.065.512 sobre ele, o ex-governador Miguel Arraes estava pronto para retomar a sua caminhada na política.

Com uma equipe pequena, em que se destacava o baixinho e, à época, rechonchudo e de bigode Adilson Gomes, iria fazer o que mais gosta: ir para o interior conversar com aliados e visitar feira.

No roteiro, um jantar com os Farias, em Surubim, pernoite no Max Hotel, em Arcoverde, e, no dia seguinte, um sábado, uma visita à Feira de Ovinos e Caprinos, uma das maiores da região, e almoço na casa do então prefeito, Ângelo Ferreira (que atualmente é o gestor da cidade), que tinha todo tipo de bode sobre a mesa: guisado, assado, frito, cozido, se brincar até empanado… Depois que se passa de Arcoverde, não há outro tipo de carne que não a de bode.

Dribles na fotógrafa

Em Sertânia, a agenda foi encurtada pela morte, no Recife, do ex-prefeito Marcelo Lafayette. Mesmo assim, Arraes começou a circular pela feira, seguido por um bom número de políticos e admiradores e sob a marcação cerrada da fotógrafa do JC Mariana Guerra.

Cada vez que o ex-governador se aproximava de um cabrito, Mariana apontava a câmera, mas não conseguia finalizar a foto, porque Arraes dava um drible. E esse ritual foi se repetindo por várias vezes durante a feira. Mariana se preparava para foto, Arraes despistava. Era difícil compreender o porquê de ele estar fugindo das fotos. A repórter-fotográfica queria apenas uma foto dele com um animal representativo do Sertão, que era o bode.

Em um dado momento, os olhos de Mariana brilharam. Ele não tinha como escapar da foto. Tinha uns três ou quatro cabritos na frente de uma parede e o ex-governador só tinha duas alternativas: ou cruzava por trás deles ou voltava, para refazer um caminho mais longo.

Sem saída, Miguel Arraes olhou para Mariana e disparou: “Quer fotografar para colocar na legenda o bode velho com os bodes novos, né? Mas não vai, não!”. Deu a volta e não passou pelos cabritos, para a frustração de Mariana e alegria dos presentes.

Meses depois, nas eleições de 2002 (aquela do jingle chiclete “É jarbas, Marco Maciel e Sérgio Guerra…), Arraes foi eleito para o seu terceiro mandato de deputado federal, com 181.235 votos, chegando na quarta posição. Foi sua última vitória. Na manhã de 13 de agosto de 2005, o ex-governador de Pernambuco por três vezes Miguel Arraes de Alencar morreu por causa de um choque séptico causado por infecção respiratória, após ficar mais de 50 dias internado no Hospital Esperança, no Recife.

Foto: do saudoso Alexandre Severo

** Todos os sábados, uma crônica

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SOBRE O EDITOR
Márcio Didier

Márcio Didier é jornalista, formado pela Universidade Católica de Pernambuco, com passagens pelo Jornal do Comércio, Blog da Folha e assessoria de comunicação

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