Enquanto a maioria dos brasileiros encerrava o expediente de uma quinta-feira (30), já com a mente no descanso do Dia do Trabalhador, o Congresso Nacional operava em um ritmo acelerado, num ritmo pouco usual para um dia de quinta e, principalmente, que antecede um feriado. Infelizmente, não era para votar o alívio do endividamento das famílias, o fim da escala 6×1 ou medidas urgentes de segurança pública. O esforço concentrado tinha nomes e sobrenomes específicos, provando que, entre os tapetes verdes e azuis, a política muitas vezes serve apenas à política.
Em uma dia, o Senado Federal cruzou a linha de tensão institucional ao vetar uma indicação presidencial ao STF, um movimento que sinaliza menos um crivo técnico e mais uma medição de forças política. Mas o verdadeiro golpe contra o bom senso veio na sequência: a derrubada do veto pelo Congresso Nacional à Lei da Dosimetria e a articulação da PEC que abranda penas de condenados.
O objetivo é transparente: criar um arcabouço jurídico sob medida para beneficiar os envolvidos na tentativa de golpe do 8 de janeiro, com foco no ex-presidente Jair Bolsonaro, atualmente preso.
O brasileiro costuma ter memória curta, por isso é bom relembrar. O que se tenta anistiar ou abrandar não são erros administrativos menores. Estamos falando de:
- Invasão e depredação das sedes dos Três Poderes, uma barbárie nunca vista;
- Bloqueio de rodovias e ameaças com bombas em aeroportos.
- Tentativa de golpe de Estado
A narrativa da “direita perseguida” tenta pintar esses atores como cidadãos injustiçados, mas a realidade dos autos mostra uma horda atentando contra a ordem democrática.
Congresso ignora temas
A ironia dói. Na véspera do 1º de maio, o Legislativo ignorou solenemente:
- A Escala 6×1: Uma demanda crescente de mudança nas relações de trabalho.
- Violência contra a Mulher: Que continua a registrar índices alarmantes enquanto verbas são contingenciadas.
- Endividamento: O sufoco financeiro que tira o sono de milhões de lares brasileiros.
A derrubada desse veto pelo Congresso é a prova de que deputados e senadores parecem viver em uma bolha de privilégios, onde a impunidade dos seus aliados vale mais do que a segurança e o prato de comida do cidadão comum.
É inegável que existe um debate jurídico e social sobre a proporcionalidade das penas aplicadas a alguns envolvidos nos atos de 8 de janeiro. Questionar o rigor das sentenças e defender o devido processo legal é um direito legítimo em qualquer democracia, e é natural que existam opiniões divergentes sobre a dosimetria aplicada pelo Judiciário.
No entanto, o que não se pode permitir é que esse debate seja sequestrado para camuflar a natureza dos crimes cometidos. Independentemente do espectro político, é preciso relembrar: o que ocorreu foi grave. Houve o uso da força para tentar subverter o resultado das urnas, destruição do patrimônio histórico e um ataque direto às instituições.
O que vimos nesta semana no Congresso, portanto, foi uma vergonha institucional. Ao priorizar manobras que visam beneficiar grupos políticos específicos em vez de focar na segurança e no bem-estar do povo, o Legislativo confirmou que sua bússola não aponta para as ruas. Enquanto o Brasil real lida com o endividamento e a violência, Brasília se ocupa em desenhar saídas de emergência para quem atentou contra as bases do país. É, acima de tudo, um desrespeito com a realidade brasileira.
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