Amizades do Cristal: firmes, para a eternidade

O Bar Cristal funcionou na esquina da rua do Imperador coma 1º de Março

Todas as noites o ritual se repetia. Às 22h, numa pontualidade britânica que pouco combinava com o ambiente, baldes de água eram lançados naquele vão de não mais de 30 metros quadrados e nenhuma mesa, naqueles anos de 1990. Para os frequentadores era a “cerimônia” de “lava pés”. Para o dono, uma assepsia necessária para começar o dia seguinte minimamente limpo, diante da poeira provocada pelo frenético movimento de carros no cruzamento movimentado da Rua Imperador com 1º de março. Uma tarefa hercúlea, mas de poucos resultados efetivos. O bar Cristal foi durante anos o refúgio de duas categorias em fase de extinção: os jornalistas de redação de jornal e os bancários da agência do Bradesco.

O que um dia foi a casa de Mauricio de Nassau no Recife, veja o naipe do lugar, sucumbiu ao sucateamento do centro do Recife. Hoje, placas de “aluga-se” ou “vende-se” reduzem a uma transação comercial um lugar carregado de história.

No auge de público, a Cristal era um lugar massa, dos mesmos e mais fiéis frequentadores, que dava um clima de brodagem ao local. Por trás do balcão em L, o comando ficava com o desbocado Arlindo, um sujeito bruto (no bom sentido), cheinho, de cerca de 1,70, olhos claros e entradas proeminentes, em um restante de cabelos desgrenhados. Sempre usando uma bata branca, em que se destacava a ausência de lavagem. Arlindo era o maestro de uma orquestra mal treinada.

Certa vez, a vigilância sanitária do Recife resolveu fazer uma visita, logo numa sexta-feira de Carnaval. Por estar no raio de abrangência do Galo da Madrugada, tal fiscalização se fazia necessária. Por um motivo alheio à razão, Arlindo ficou sabendo da fiscalização. Por volta das 18h, da sexta-feira pré-carnavalesca, estava ele à porta do Cristal com cabelo quase à régua, separado milimetricamente do lado direito para esquerdo, uma bata que poucos alvejantes conseguiriam deixar mais branca e uma tranquilidade de fazer inveja aos monges tibetanos.

Quando a fiscalização chegou, Arlindo foi mostrando o bar, todo preparado para a visita. Abandonado o vocabulário habitual, de muitas palavras de baixo calão, ele foi mostrando recatadamente os poucos recantos do pequeno bar. Ao fundo, os frequentadores habituais faziam as vezes de advogados do diabo: “Solta as baratinhas, Arlindo”; “As baratinhas merecem viver livres”; “Arlindo, as arainhas tão perguntando se vai demorar muito para saírem”. Por sorte, ou por vontade de caírem na folia, os fiscalizadores ignoraram a torcida alheia e liberaram o bar para funcionar durante o Carnaval. Quando saíram, Arlindo disparou: “Vão tomar no…”

Cristal, um hub de amigos

O bar Cristal tinha pouca variedade de bebidas e, menos ainda, tira-gostos. Além do topado bolinho de bacalhau (esse era bom pra cacete), tinha o ovo cozido (sim, ovo cozido, pense!), caldinho (que sempre tinha o gosto do dedo de Arlindo, pois ele o deixava descansar dentro da bebida, até ser entregue ao cliente – acho que gostava da temperatura mais que branda, para não dizer fria, do caldinho) e, não procurem entender, saramunete, um peixe em que espinha é boia e de gosto duvidoso e forte de maresia. Triste de quem pedia o saramunete e, simultaneamente, um outro cliente pedisse uma cerveja. Arlindo não tinha dúvida: colocava o peixe, que pegava co a mão sem luva, em cima do lado enferrujado do freezer horizontal – que funcionava pela graça divina -, para pegar a cerveja. Não há notícia até hoje de qualquer morte provocada por isso, até a produção deste texto.

Essa era a rotina do Bar Cristal. Quem o frequentava sabia onde estava se metendo e tinha que respeitar as regras do local. Frequentador por anos do Cristal, Zé Maria, um ícone da diagramação do Diario de Pernambuco por mais de 40 anos, figura agradabilíssima, de bigode bem cortado, com suas roupas de calças e camisas de manga curta combinando, tinha lugar cativo no bar. Quando chegava, se alguém tivesse a petulância de estar no último banco do lado esquerdo do balcão, tinha que sair. Era costume dizer que o balcão de mármore já tinha a forma do braço de Zé (havia realmente uma mossa). Diariamente tomava duas doses no local e levava uma garrafinha de 330 ml para a redação. Reza a lenda que Zé, inclusive, nunca quis tirar férias em mais de 40 anos de trabalho no DP. Quando o Ministério Público do Trabalho o obrigou a tirar uma, o câncer venceu a batalha silenciosa contra ele.

Assim como Zé, tive os melhores amigos no bar. Ainda estagiário, fui levado por Henrique Queiroz. Dividi cervejas com Otávio Toscano. Fui acolhido num batismo profano do Bar Cristal. Poucos foram aceitos e eu fui um deles. Com a vida egoísta, que gosta de levar os bons, não é fácil lembrar de poucos e bons amigos, que, mesmo sem estar ao lado me ajudando a escrever as matérias, me ensinaram tanto sobre jornalismo.

Por muitos anos vocês fizeram um estagiário feliz. Ensinaram que o caminho de um texto correto pode passar muito longe de uma máquina de escrever ou de um computador. Mas sim pela vida, pelas boas conversas e pelos excelentes amigos. E eu tive a honra de ter dois dos melhores. Henrique e Otávio, sem qualquer pretensão, foram professores para além do jornalismo. Ensinaram que escrever é ouvir, observar, conversar e respeitar a informação. E eu tive muita sorte por isso.

Valeu Tavinho (Otávio Toscano) e Bandido (Henrique Queiroz). Muito obrigado por tudo! Sou profundamente grato por ter sido acolhido por vocês. Vocês foram foda e foram cedo demais (isso é que é foda). Que saudade de vocês! Sou hoje o que aprendi com vocês.

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SOBRE O EDITOR
Márcio Didier

Márcio Didier é jornalista, formado pela Universidade Católica de Pernambuco, com passagens pelo Jornal do Comércio, Blog da Folha e assessoria de comunicação

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