A pouco mais de quatro meses das eleições de outubro, o confronto político entre a oposição e a gestão da governadora Raquel Lyra ganhou um novo capítulo nesta terça-feira. Em tom forte, quatro deputados estaduais apresentaram, na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) um diagnóstico da saúde em Pernambuco e denunciaram o colapso da rede pública. A asfixia financeira decorrente do corte de R$ 1,5 bilhão nos investimentos na saúde, o fechamento de unidades de referência e a redução no número de leitos formam, de acordo com os deputados de oposição, o tripé que levou o atendimento público a um colapso generalizado, gerando o que os parlamentares classificam como um “cenário de guerra”.
Segundo o líder da oposição na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) e presidente da Comissão de Saúde da Casa, Sileno Guedes (PSB), a gravidade do momento atual não é um fato isolado, mas o resultado direto da combinação desses três fatores.
“A junção da queda brutal no orçamento, com o fechamento sistemático de serviços e a eliminação de leitos criou a tempestade perfeita. É a combinação desses três fatores que nos fez chegar onde estamos hoje, com a saúde de Pernambuco completamente desestruturada”, disparou Sileno Guedes.
Além do líder oposicionista, participaram da formulação das denúncias os deputados Diogo Moraes (líder do PSB na Casa), Rodrigo Farias e Eriberto Filho, que visitaram quatro unidades de saúde do Recife (Hospital da Restauração, Agamenon Magalhães, Getúlio Vargas e Otávio de Freitas). O bloco apresentou o relatório intitulado “Saúde de Fachada”, elaborado após vistorias fiscalizatórias motivadas por reclamações de usuários e profissionais da área.
Os dados técnicos do relatório detalham o esvaziamento da pasta. A aplicação de recursos na saúde encolheu de 18,8%, em 2022, para 15,8%, em 2025. Embora ainda acima do limite legal de 12%, a redução retirou R$ 1,5 bilhão do setor. Os dados foram compilados a partir das prestações quadrimestrais que são apresentadas. Paralelamente, com base na mesma fonte, o estado perdeu 226 leitos em três anos, caindo de 12.552 para 12.328 vagas operacionais. A oposição também listou o encerramento das atividades do Hospital de Retaguarda em Neurologia, do Hospital Central de Paulista e do Hospital Jesus Nazareno, em Caruaru.
Para os parlamentares, as reformas promovidas pelo Palácio do Campo das Princesas priorizam a estética e “ignoram o sofrimento humano” dentro das unidades. O deputado Rodrigo Farias relatou o cenário encontrado nas emergências:
“É da fachada que estão cuidando. Não é cuidado com o paciente, com as famílias, com o profissional. Você vê primeiro eles cuidando da fachada para passar para quem tá fora um cenário… mas quando você vai para dentro, para as emergências, para os corredores, é um cenário de guerra. São macas jogadas, quartos escuros sem lâmpada e pacientes tendo que levar seu ventilador de casa porque os de lá não funcionavam. Um cenário de caos”, listou Rodrigo Farias.
Líder da oposição na Alepe, o deputado Diogo Moraes corroborou a denúncia, citando a falta de assistência médica básica na rotina hospitalar.
“É algo assustador pela falta de atendimento. Vi o caso de uma senhora que estava há 10 dias com o dedo necrosado por diabetes e a perna já começando a ficar do mesmo jeito. Era para ter cortado o dedo, mas por falta de atendimento já ia ter que cortar o pé. A primeira impressão é nas propagandas, em ambientes bem estruturados. Na verdade, inauguram um ambulatório pequeno, mas o hospital continua com os mesmos problemas, com superlotação e profissionais sem ter o que fazer porque os investimentos não são feitos. As obras dela são feitas de fora para dentro.”
Diagnóstico da oposição
O relatório compilou problemas estruturais e sanitários em quatro grandes hospitais da rede estadual:
- Hospital da Restauração (HR): O texto aponta que o governo levou 3,5 anos para recuperar apenas a fachada e dois andares. Recentemente, houve desabamento de teto no 7º andar, infiltrações e pacientes sendo assistidos diretamente no chão, segundo eles.
- Hospital Agamenon Magalhães (HAM): Além de apresentar superlotação e ter 7 de seus 8 elevadores quebrados ou em estado crítico, a bancada expôs um relatório “oficial e urgente” da própria Engenharia Clínica da unidade. O documento denuncia o desprendimento do forro de PVC e uma infestação de ratos na sala de guarda de equipamentos médicos.
- Hospital Getúlio Vargas (HGV): Registra pacientes acomodados no chão e o descarte irregular de insumos médicos válidos e dentro do prazo de validade. Os deputados ressaltaram que o anúncio do novo hospital completará dois anos sem nenhuma parede erguida, “contando apenas com tapumes no local”.
- Hospital Barão de Lucena (HBL): Reúne superlotação nas alas de emergência pediátrica e na UTI Neonatal. O relatório relembrou o caso de uma gestante que realizou o parto no chão da unidade (com direito a reparação reconhecido pela Justiça), além de tetos desabados na UTI e acompanhantes dormindo na área externa por falta de acomodação, segundo eles.
Os deputados de oposição também exibiram um vídeo de 3’49’’ com imagem que teriam sido captadas durante as visitas nos quatro hospitais, realizadas na segunda-feira (25).
Encaminhamentos legais
Ao final da apresentação os deputados anunciaram que o relatório com as irregularidades apresentadas não ficará restrito ao debate político na Alepe. O bloco formalizará denúncias coletivas junto ao Conselho Regional de Medicina de Pernambuco (Cremepe), ao Tribunal de Contas do Estado (TCE-PE) e ao Ministério Público de Pernambuco (MPPE), além de protocolar uma notificação formal e cobrança de esclarecimentos junto à Secretaria Estadual de Saúde.
A líder do Governo, Socorro Pimentel, foi escalada para rebater as críticas da oposição. Tão logo enviem a resposta, o marciodidier.com.br vai publicar.
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