Música, cultura nordestina e causos. Em uma participação marcante no podcast Dose Dupla, o cantor e compositor Santanna, o Cantador, trouxe à tona reflexões sobre o atual cenário das festas de São João no Nordeste, estabelecendo um comparativo direto entre a organização da Bahia e a de Pernambuco. Conhecido por sua voz forte e poesia legítima, o artista revelou que sua agenda junina é amplamente dominada por shows em solo baiano e na Paraíba, destacando que, no ano anterior, realizou apenas quatro apresentações em Pernambuco.
Segundo Santanna, Pernambubco tem muito a aprender com o marketing e a estrutura da Bahia, onde cerca de 300 municípios realizam festejos do tamanho dos de Caruaru e Campina Grande. Embora a celebração baiana tenha uma duração menor, concentrada na semana junina, Santanna fez um alerta mercadológico contundente: no dia em que os baianos resolverem estender a festa por um mês inteiro, a concorrência se tornará quase insustentável para os demais estados nordestinos.
Essa migração de palcos também reflete uma crítica do artista à postura de alguns gestores públicos que, na tentativa de transformar o São João em grandes festivais genéricos, acabam descaracterizando a essência do forró tradicional ao priorizar outros gêneros musicais.
Para Santanna, esse movimento é mercadologicamente perigoso, pois o turista viaja ao Nordeste em busca do diferencial cultural e não de atrações que ele poderia assistir em qualquer esquina de São Paulo. Diante desse cenário de descaracterização, o músico garantiu que continuará defendendo as raízes juninas, comparando sua persistência à fábula do beija-flor, que tenta apagar o incêndio da floresta carregando gotas d’água no bico, ciente de que está fazendo a sua parte.
Os causos de Santanna
Essa mesma defesa da identidade nordestina transborda no carisma com que o artista compartilha suas histórias de bastidores, mostrando que a graça e a sensibilidade andam de mãos dadas em sua trajetória. Ao comentar sobre a intensa rotina de shows e o preenchimento de datas no período junino, Santanna relembrou com bom humor um debate antigo numa rádio. Na ocasião, ele e Petrúcio Amorim listavam entusiasmados suas agendas lotadas por vários estados do país. Quando questionado sobre seus compromissos, o cantor Azulão, de Caruaru, não hesitou e arrancou risadas de todos ao responder, com uma honestidade espirituosa. ” Aminha agenda também está completamente cheia, mas de vagas”.
O bom humor do cantador também se manifestou quando os apresentadores tentaram arrancar dele a sua idade atual. Com a rapidez de um mestre do improviso, Santanna desconversou e pediu respeito, afirmando que artista simplesmente não tem idade e que, pelas suas contas, ele finalmente completará 17 anos no ano de 2028. A brincadeira matemática esconde uma característica curiosa de sua biografia, já que o músico nasceu em um dia 29 de fevereiro, ano bissexto, o que lhe permite comemorar o aniversário exato apenas de quatro em quatro anos.
Encerrando a conversa com uma dose profunda de sensibilidade e afeto, Santanna resgatou uma citação marcante sobre a infância e o colo materno. Ele relembrou o sentimento de saudade do tempo “em que todos os seus grandes medos cabiam perfeitamente dentro de um abraço de mãe”. Segundo o artista, era ali, naquele refúgio seguro, que desapareciam os pavores folclóricos de criança, como o clássico homem do saco ou o papa-figo.
Unindo a lucidez crítica sobre o mercado da música à riqueza de suas memórias, Santanna, o Cantador, reforça seu papel como um guardião essencial da cultura nordestina, seja preparando novos projetos para os palcos — como o trio “Três Nordestinos”, ao lado de Flávio José e Targino Gondim —, ou simplesmente mantendo viva a tradição oral por meio de suas canções e causos.
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