“Pênalti é tão importante, mas tão importante, que quem deveria bater é o presidente do clube”. A frase atribuída ao massagista fluminense Neném Prancha é sobre o futebol, mas também pode ser usada na vida, na administração pública. Sobre o que é essencial. Tem festas que a gestão não pode errar, como o Carnaval para Olinda e para o Recife. Mas entre os eventos nas duas cidades há uma distância imensa, gigantesca. Enquanto na capital pernambucana tudo funcionou, a folia de Olinda apresentou falhas muito graves, que já não deveria ocorrer.
Com um dos carnavais mais famosos do Brasil, com os bonecos gigantes, o charme do Sítio Histórico, as orquestras de frevo e a espontaneidade dos foliões, Olinda não consegue transformar essa fama em recursos para bancar a festa. Informações internas dão conta que o município captou R$ 10 milhões, contra R$ 20 milhões do Recife. Muito pouco para o tamanho e a fama da festa.
O resultado disso é uma sensação de improviso e desleixo em toda a festa. Palco principal, por exemplo, começando a ser montado faltando uma semana para o início da festa. Já a decoração foi pobre e montada em cima da hora, enquanto ambulantes tomaram conta das ruas, ocupando espaço dos foliões. E o pior de tudo: lixo, muito lixo, e cheiro forte de urina pelas ruas Olinda.
É impossível não comparar com o evento organizado pela Prefeitura do Recife. Além de muitas lixeiras espalhadas no Recife Antigo, 10 minutos depois do fim das apresentações no Marco Zero, o pessoal de limpeza urbana já entrava em ação. A cidade já amanhecia limpa e organizada. Questionada pelos repórteres sobre o lixo que ainda estava na rua na quinta-feira (19), a prefeita Mirella Almeida disse apenas: “Está sendo recolhido hoje”.
Na mesma coletiva, foi dito que a gestão já estava trabalhando no Carnaval do próximo ano. É o que se espera. Até porque terá menos de 365 dias para cuidar da festa.
Ativo para Olinda
Se o pênalti é decisivo demais para ser delegado a qualquer um, o Carnaval de Olinda também é estratégico demais para ser tratado como rotina administrativa. A festa não é apenas tradição cultural: é ativo econômico, vitrine turística e motor de arrecadação. Quando a gestão falha no planejamento, na captação de recursos e na execução dos serviços básicos, o prejuízo não é apenas estético, é institucional.
Olinda não pode se acomodar na própria história. Fama não paga palco, não substitui logística, não resolve limpeza urbana. A dependência de aportes externos e a diferença na captação de recursos em relação ao Recife revelam um problema de gestão, não de potencial. E potencial é o que não falta.
Carnaval exige planejamento de 12 meses, articulação com patrocinadores, organização do espaço público e, sobretudo, prioridade política. Se é a principal vitrine da cidade, deve estar no topo da agenda do governo municipal. Porque, no fim das contas, há momentos em que o prefeito precisa assumir a cobrança do pênalti. E o Carnaval é um deles.
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