SDS nega irregularidades na ação de monitoramento de secretário do Recife e apura vazamento

O secretário de Defesa Social, Alessandro Carvalho, confirmou que a ação foi realizada e acrescentou que foi arquivada por falta de provas Foto: Arthur Mota/Folha de Pernambuco

Márcio Didier
Do Movimento Econômico


No dia seguinte à divulgação de reportagem em rede nacional denunciando suposta espionagem envolvendo a Polícia Civil de Pernambuco, a Secretaria de Defesa Social (SDS) confirmou a realização da investigação interna denominada “Nova Missão”, que teve como alvos o secretário de Articulação Política e Social do Recife, Gustavo Monteiro, e seu irmão, o assessor municipal Eduardo Monteiro, e que ela foi encerrada sem comprovação de irregularidades. A investigação ocorreu entre agosto e outubro de 2025, a partir de denúncia anônima de suposto envolvimento em esquema de cobrança de propina de fornecedores da prefeitura, e ganhou repercussão após exibição do caso no programa Domingo Espetacular, da TV Record, neste domingo (25).

Durante entrevista coletiva realizada nesta segunda-feira (26), o secretário de Defesa Social, Alessandro Carvalho, afirmou que autorizou diligências preliminares para verificar a procedência da denúncia. Segundo ele, esse tipo de procedimento é adotado para evitar a abertura de inquérito sem elementos mínimos. “Houve denúncia anônima, que poderia ter consistência ou não. A Polícia Civil não pode instaurar inquérito só com denúncia anônima. É preciso apurar para saber se procede e dar segurança jurídica e não causar constrangimentos”, declarou.

O secretário informou que foi formada uma equipe com três delegados e sete agentes para acompanhar um veículo funcional locado pela Prefeitura do Recife. De acordo com Carvalho, não houve monitoramento da vida pessoal nem de veículos particulares dos investigados. “Era um serviço legal e lícito”, afirmou. Ele também disse que não é necessária autorização judicial para esse tipo de diligência preliminar e justificou a compra de um rastreador com recursos de um fundo operacional utilizado para despesas de investigações.

Carvalho apura vazamento

Alessandro Carvalho confirmou ainda que a SDS abriu procedimento para apurar o vazamento de informações sigilosas relacionadas ao caso. Um agente da Polícia Civil é suspeito de ter repassado dados da investigação e já havia sido afastado da área de Inteligência em novembro, após ser flagrado transmitindo informações ao presidente da Câmara Municipal de Ipojuca, Flávio do Cartório (PSD), investigado por desvio de recursos e preso.

“O agente foi excluído do grupo. Será instalado um inquérito e aberto procedimento administrativo. O problema não é WhatsApp ou um ofício, são as pessoas. Houve um vazamento de informações que certamente têm motivações”, disse o secretário. Questionado se essas motivações do vazamento poderiam ser políticas, respondeu: “Pode, sim”. Ele acrescentou que a governadora Raquel Lyra determinou que todas as informações fossem prestadas e que tudo o que precisar ser apurado seja apurado.

O secretário Gustavo Monteiro foi vigiado entre os meses de agosto de outrobro de 2025 pela Polícia Civil Foto Divulgação PCR

PCR fala em perseguição política

Em nota oficial, a Prefeitura do Recife afirmou que “repudia qualquer tentativa de uso indevido das forças policiais de Pernambuco para perseguição política”. O texto classifica a prática como “ilegal, inconstitucional e imoral” e informa que o município adotará medidas nas esferas administrativa e judicial para defender seus servidores.

A gestão municipal também declarou que a Polícia Civil de Pernambuco é uma instituição com mais de dois séculos de existência e que não há registro histórico de uso eleitoral da corporação nesse período.

Presidente da Alepe, Álvaro Porto afirmou que não poderia “silenciar diante de fato tão grave” Foto Divulgação

Álvaro Porto cobra providências

O presidente da Assembleia Legislativa de Pernambuco, deputado Álvaro Porto, divulgou nota na qual afirmou não poder “silenciar diante de fato tão grave” e defendeu reação da sociedade organizada diante do que classificou como “uso de agentes do Estado para perseguir adversários políticos”.

No texto, ele afirmou que espera providências do Governo do Estado e relembrou que já havia denunciado da tribuna a existência de estruturas voltadas à disseminação de ataques contra adversários políticos.

“Neste domingo, para tristeza e revolta de todos nós, somos surpreendidos com a notícia das perseguições a funcionários da Prefeitura do Recife, perpetradas por agentes que, ao invés de defenderem a segurança dos pernambucanos, foram usados para fins não republicanos, usando o que existe de mais moderno para bisbilhotar, perseguir e constranger, com dinheiro público, adversários do governo. Isso tem que ter um basta! Esperamos que a governadora tome as providências que o caso requer e que o povo espera”, colocou Álvaro Porto. 

Na mesma nota, o presidente da Alepe trouxe de volta a questão da Empresa Pernambucana de Transportes Intermunicipais (EPTI), que não fiscalizou a empresa Logo Caruaruense, de propriedade da família da governadora Raquel Lyra. “A título apenas de lembrança, estamos no aguardo das medidas judiciais que a governadora deveria já ter tomado contra a empresa do seu pai, inadimplente do Estado”, provocou Porto.

A deputada federal Maria Arraes cobrou investigação sobre o caso envolvendo a Polícia Civil e questionou quem teria autorizado o suposto monitoramento

Parlamentares querem ação investigada

A deputada federal Maria Arraes (Solidariedade) também cobrou publicamente investigação sobre o caso envolvendo a Polícia Civil e questionou quem teria autorizado o suposto monitoramento de gestores municipais. “A Polícia Civil, que deveria estar investigando crimes e protegendo a população, está sendo utilizada para coletar informações e perseguir adversários políticos, sem qualquer ordem judicial”, declarou. A parlamentar defendeu que a Polícia Federal investigue o caso e que eventuais responsáveis sejam identificados.

O deputado estadual Waldemar Borges (PSB), por sua vez, publicou artigo no qual defende que o uso da polícia como instrumento político representa risco ao Estado de Direito. No texto, ele sustenta que é necessário esclarecer quem autorizou a ação e afirma que, se houver confirmação de irregularidades, os responsáveis devem ser responsabilizados.

“A história já mostrou, e sempre da pior forma, que quando o Estado transforma a polícia em instrumento político, a democracia começa a ruir. Isso nunca começa de uma vez. Começa com “missões” sem papel timbrado. Com pessoas virando “alvo”, não por decisão da Justiça, mas por ordem de quem se acha acima da lei”, escreveu Waldemar Borges.

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SOBRE O EDITOR
Márcio Didier

Márcio Didier é jornalista, formado pela Universidade Católica de Pernambuco, com passagens pelo Jornal do Comércio, Blog da Folha e assessoria de comunicação

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